Não fora ter recebido um telefonema da secretaria dos Bombeiros Voluntários locais, não tinha qualquer assunto relevante para narrar. A minha vida é uma desrelevância contínua. Quando vi, no ecrã do telemóvel, a identificação da associação de bombeiros, estranhei. Não a frequento, não tinha requisitado nenhum serviço de ambulância. Atendi, expectante. Afinal, foi só para me lembrarem que estou longe de ser um jovem rapaz. Uma menina da secretaria, com uma voz simpática e bem-soante, perguntou-me se eu queria, no dia x, estar no sítio y, numa cerimónia de aniversário da agremiação. Não percebi a razão do convite, mas não disse nada. É que, continuou a voz do outro lado, fez 50 anos de sócio. É para receber o diploma e o pin. Eu sabia que era sócio dos bombeiros. Todos os anos pago as quotas. Não imaginava, porém, que já o fosse há meio século. E não me tornei sócio em criança, nem na adolescência. Disse que sim, que teria muito prazer em estar na cerimónia, apesar de nunca ter querido ser bombeiro, nem mesmo naquela altura em que os rapazes de antigamente queriam ser bombeiros ou polícias. Isto é coisa que ouvia, mas, na verdade, nunca conheci nenhum rapaz do meu tempo que tivesse essas preferências, aliás louváveis. Eu, quando tinha idade para querer ser bombeiro ou polícia, tanto quanto me lembro, não queria ser nada. Aliás, nunca quis ser nada. E agora cheguei ao tempo em que não sou efectivamente nada. Realizei um sonho de infância.
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Da bondade da etiqueta
Ontem, afirmei aqui, ainda que de passagem, que uma coisa é a etiqueta e outra é a moral. Ora, discordo em absoluto da minha afirmação. Isso acontece-me com regularidade, várias vezes ao dia. Pegar correctamente nos talheres parece não ser uma regra de moralidade. Pessoas que sabem como usar os talheres podem ser uns refinados filhos da mãe, enquanto outras, que não sabem o que fazer com eles, podem ser as pessoas mais bondosas do mundo e as mais moralmente sãs. Não é isto um poderoso argumento contra a minha crença de hoje sobre etiqueta e moral? Claro que não. Se seguirmos as regras da etiqueta, podemos não ser grande coisa, mas tornamos o mundo mais agradável e habitável pelos outros. Ora, este cuidado com o prazer dos outros em habitar o mundo é completamente moral. Desconfio que as escolas ensinam inutilidades sem fim, desde que a criança entra no Jardim de Infância até que o adulto conclui o seu terceiro pós-doutoramento, ainda que desempregado. Só não ensinam o essencial: as regras de etiqueta. Se todos as conhecessem e as usassem, o mundo seria definitivamente melhor. Os instintos, o coração e a inteligência podem desejar actos malvados, mas a etiqueta, ao preocupar-se com o que é agradável em sociedade, refrearia as pulsões dos instintos, os delíquios do coração e os sofismas arquitectados pela inteligência. É pena o ministro da Educação não ler este blogue. Tinha aqui o elemento central para um currículo que tornaria o nosso país numa coisa decente. Os ministros, porém, sofrem de enviesamento estrutural e nunca percebem quando estão perante uma ideia redentora. Há que ter paciência. Um dia, a etiqueta salvar-nos-á do seu enviesamento.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Entre pesadelos e apocalipses
Talvez fosse de bom tom – portanto, uma atitude de etiqueta e não de natureza moral – que se começasse a ter pesadelos com os superpoderes que os criadores de Inteligência Artificial já vislumbram na coisa. Eu fui leitor do Super-Homem, mas ele, apesar dos seus enormes superpoderes, tinha duas coisas que tranquilizavam qualquer um, o que evitava pesadelos. Estava do lado do bem e, além disso, havia a Kryptonita que, nas suas diversas colorações, afectava, e muito, o desempenho e a vida do herói. Esse mineral, pois de um mineral se tratava, vindo do planeta Krypton, poderia constituir uma limitação razoável para o caso de ele enlouquecer e bandear-se para o lado do mal. Agora, segundo nos anunciam, a super-heroína tem cada vez mais poderes, que aumentam a uma velocidade desmedida, e não se conhece nenhum mineral que lhe enfraqueça as capacidades, que a jogue por terra e nos salve, caso ela se decida pelo mal e faça de nós o alvo predilecto das suas indisposições de silício. O melhor, por isso, é começar a ter pesadelos. Estes perturbam as pessoas, podem gerar um clima de histeria, mas histérico anda já meio-mundo. Há uma outra perspectiva sobre o assunto. A Inteligência Artificial pode ser apenas um dispositivo que a Natureza inventou, através dos seres humanos, para se livrar deles. Atormentada pelas suas maluquices, pelos seus desejos de poder e glória, fartou-se. Ordenou, então, ao Homem (aqui com maiúscula, embora imerecida): cria, para mostrares que és inteligente, uma inteligência que supere a tua. O Homem não resistiu. Criou. Agora, a Natureza respira de alívio, os homens dormem inconscientes, e as pessoas sensatas, como este narrador, suplicam por uma chuva de pesadelos. Para quê? Não faço ideia, mas tenho a intuição de que deveria ajudar nalguma coisa. Se fosse uma pessoa coleccionadora, iria buscar uma banda desenhada do Super-Homem e pôr-me-ia a lê-la até adormecer. Não tenho, porém, alma de coleccionador; resta-me ir falar com o chatbot que uso no dia-a-dia.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
O problema do parágrafo
Há quem me pergunte – ou imagino que poderia perguntar, caso eu não fosse estritamente um narrador anónimo – a razão por que os posts só têm um parágrafo. Mudo de assunto, mas não faço parágrafo, acusam-me, ou talvez fantasie que me acusam. Existem muitas razões que prescrevem a mudança de parágrafo. Não vou enumerá-las, pois tornaria o texto ainda mais aborrecido. Ao não mudar de parágrafo, infrinjo, com prazer, as regras de mudança de parágrafo. Eu, um cordato narrador, torno-me, ao escrever estes textos, num infractor. Talvez um dia a polícia da estilística nacional me multe. Posso apresentar várias razões para não fazer mudanças de parágrafo. A primeira é falsa: cada texto só trata de um único assunto. Não, muitas vezes mudo de assunto como o vento muda de direcção. Só porque me apetece. Há uma segunda razão, de natureza estética. Gosto de ver os textos em monobloco, fazendo uma unidade compacta, o que me traz à memória, agora que vivemos em tempos líquidos, o mundo sólido em que outrora se viveu. A solidez é bela, e este narrador tem dias que é conservador e ama a beleza. A terceira razão, a única a que daria crédito, embora sem exagerar, diz simplesmente isto: os parágrafos são proibidos por uma crença que se infiltrou na minha alma, cuja infracção pode dar azar. Por isso, não há parágrafos nestes posts. Nem sequer um. Isto não é um parágrafo, é um tijolo que, adicionado aos outros, me permite compor a habitação em que vivo. No dia em que apresentar aqui um post com dois parágrafos, há razões sérias para pensar que o narrador enlouqueceu, que não hesita em chamar o azar, abrir uma fresta na solidez e empurrar o blogue para o naufrágio. Seja como for, nunca ninguém me perguntou as razões por que não me ponho a paragrafar o texto, não apenas porque não se sabe quem é o narrador – o autor, também não – mas porque ninguém se interessa por isso.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Um aluno mediano
Tenho quase sempre um miserável desempenho na disciplina do Sono. Dantes, isto era uma impressão, mas já há uns tempos que substituí o impressionismo do «parece que dormi mal» pela certeza técnica. Com um smartwatch conectado ao smartphone, como se vê tudo coisas very smart, monitorizo — adoro esta linguagem técnica — o meu sono, noite após noite. Tive a certeza de que era um aluno mediano, senão mesmo medíocre. No último teste, a noite passada, obtive 58,14 pontos em 100 possíveis. Nem chega a 12 valores na escala com que fui avaliado quando era aluno. Talvez para me humilhar, existe um desdobramento classificativo, embora meramente qualitativo. Começo pelo fim, isto é, pelo melhor. Em Latência do Sono, obtive um excelente. Já no Sono REM, não passei do razoável. Em Descanso, Sono Profundo e Tempo Real de Sono, por misericórdia pedagógica, fui classificado com um «atenção», classificação dada para não traumatizar o aluno que, na realidade, recebeu um «mau» na caderneta secreta da aplicação. Depois, como uma professora zelosa, a aplicação dá-me conselhos para recuperação, exercícios de remediação. Não sabe ela, com a sua vocação professoral, de uma coisa. Este narrador mal dormido ainda não recuperou do primeiro dia em que pôs os pés na escola. Já passaram mais de seis décadas. O melhor seria mudar de aplicação como quem muda um filho de colégio. Desconfio, porém, de que todas as aplicações vigilantes da qualidade do sono são concebidas por programadores que, no fundo, são professores frustrados. Muito gostaria de amanhã receber um excelente, mas, se tiver um razoável, já me alegro. Não sou um aluno ambicioso.
domingo, 13 de setembro de 2026
Uma aventura de domingo à tarde
Uma tarefa difícil para um domingo de Verão. Fazer um vídeo em que me filmo a falar sobre – ou será para? – a minha neta mais velha, pelos seus 18 anos. O vídeo é o de um cineasta abaixo de mau, o actor ainda é pior, mas toda a obra é minha. O script, a filmagem, a representação. Salva-me, penso, o amor. Será ele que redimirá a obra de arte. O script, porém, não será assim tão mau. Ela vai gostar e vai rir-se, e isso é importante. Talvez também se ria da representação do avô, mas isso pode acontecer a qualquer artista de domingo à tarde. E ser artista de domingo à tarde parece-me uma bela desculpa para a qualidade cinematográfica. Uma pessoa não pode ter ilusões. Eu não tenho. Ainda há uns meses, fui a uma médica especialista da voz. Andava desconfiado das cordas vocais. Examinou-me, examinou-me e, a meio da provação, diz: não é nenhum Pavarotti. Não sou, respondi. A verdade é que também não sou nenhum Visconti nem nenhum Marlon Brando. E o melhor é não me testar em mais nada, pois ainda acabo por descobrir que não sou nada. Enquanto for avô, a coisa vai muito bem.
sábado, 12 de setembro de 2026
Y Viva España
Do canal Mezzo chega-me um concerto de Joaquín Achúcarro, um pianista espanhol nascido em Bilbau. Toca no Guggenheim da sua terra natal. Enquanto lido com o calor, deixo deslizar a música de Brahms no escritório. Não se pense, porém, que passei o dia envolvido em coisas elevadas. Assisti, na televisão, a grande parte da penúltima etapa da Vuelta a España. Diziam os comentadores da Eurosport que era a etapa rainha, uma expressão corrente no comentário de ciclismo. O que é uma etapa rainha? É uma etapa de especial dificuldade, devido às montanhas que os ciclistas têm de escalar, acabando, muitas vezes, no cimo da mais difícil. Não há uma etapa rei. O difícil é feminino, o que me parece justo. Não sou um seguidor do ciclismo, mas gosto de espreitar as grandes Voltas — Itália, França e Espanha — e, por vezes, deixo-me ficar a ver. A de hoje era de um esforço insano, a combinação de muita montanha com o calor abrasador da Andaluzia. Talvez este esforço não seja menos elevado que a música de Brahms, de Liszt ou de Chopin. Apenas pertence a outro campo. Eu vejo aqueles ciclistas e admiro a coragem, mesmo daqueles que são os últimos. Eu, só de pensar no calor, fico indisposto e nunca me imaginei em cima de uma bicicleta, a trepar a um lugar ermo, só para superar os outros e, na verdade, a mim mesmo. E aqui haverá qualquer coisa de espiritual, em comum com a arte. A ascese da auto-superação. Ganhou um espanhol a etapa, outro espanhol irá ganhar a Vuelta. Oiço um pianista espanhol a tocar num museu de uma belíssima cidade espanhola, daquelas que mais gosto. Y Viva España. Não, não quero ser espanhol.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Uma megera
Cada dia do ano tem atrás de si uma história, é aniversário disto, daquilo e daqueloutro. O 11 de Setembro não é excepção. Também nele se aniversaria não poucas coisas, por norma funestas: ataques a torres, golpes de Estado, bombardeamentos de cidades, queda de outras, batalhas aqui e ali. Como qualquer outro dia do ano, também este está tinto de sangue, que transborda dos poros da humanidade. Haverá também nele acontecimentos felizes. Consta que foi nele que nasceram o escritor D. H. Lawrence e o futebolista Franz Beckenbauer. Uma felicidade para os literatos e para os amantes do futebol. Contudo, a felicidade de cada dia não entra na história, uma megera que despreza as coisas boas, mas colecciona as más. Não passa de um museu de horrores. Por mim, acabava com a história. Mandasse eu, e decretava o fim da história. A partir de agora, não há acontecimentos memoráveis. Nada de batalhas, golpes de Estado, revoluções, cataclismos. A vida seria serena, e mesmo as paixões singulares seriam obrigadas a conter-se para que não transbordassem para fora de algum coração atormentado. Não sei como os poderes deste mundo não me escolhem para pôr tudo nos eixos, eu que tenho tantas ideias e tão boas. Um decreto meu, a história acabava e a felicidade jorrava pacífica e tranquila dos olhos de cada um. Assim, aguentem-se com a contínua visita ao museu de horrores. Talvez a espécie não mereça mais.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Um preconceituoso
O Iluminismo tinha como um dos seus inimigos o preconceito. Essa inimizade ao preconceito manteve-se e acabou por penetrar na cultura popular. Também é verdade que autores estimáveis revalorizaram, do ponto de vista filosófico, o preconceito. Não é, todavia, esse debate que me interessa, mas o meu preconceito. Apesar de educado na estrita disciplina iluminista, com especial destaque para Kant, sou um preconceituoso. Todo este intróito, sem pés nem cabeça, deve-se à minha releitura do romance O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse. Tinha-o lido há muito, mesmo há muito. E tive grande relutância de voltar a ele, pois a ideia difusa que dele tinha dizia-me que não teria paciência para aquele universo. Um preconceito. Este preconceito tem um fundamento. A minha ignorância. Quando li o romance não tinha grande capacidade analítica para compreender o que o autor ali estava a fazer. Tinha gostado muito, mas a minha leitura era excessivamente ingénua. O meu preconceito actual, contra o romance, nascia dessa ingenuidade. Quando, talvez numa noite de insónia, e não me faltam noites de insónia, peguei no livro, pensei que não passaria da segunda ou terceira página. Como aqui escrevi, num post anterior, descobri que estava a gostar. O romance era muito mais sofisticado do que eu, na altura, conseguia compreender. A obra inscreve-se plenamente no modernismo e na problemática da crise e fragmentação da subjectividade moderna. Antecipa muitas questões posteriores. Era compreendido, no tempo em que o li, como um ícone da contracultura dos anos sessenta e foi desse modo que o lera in illo tempore. Estamos – pelo menos eu estou – cheios de preconceitos. E como todos os preconceitos, também os meus nascem da ignorância. Enfim, não sou lá um grande iluminista. Por vezes, a vida dá-me uma segunda oportunidade para desfazer a crença pateta que formara, mas nem sempre.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Indecisões
As minhas netas ofereceram-me os Cantos de Giacomo Leopardi, uma tradução de Jorge Vaz de Carvalho para a Assírio & Alvim. Tem um prefácio de João Bigotte Chorão. Ora, o livro traz um defeito de impressão que afecta o prefácio. Páginas em branco, outras apenas impressas a metade. O meu primeiro impulso foi trocá-lo. Depois contive-me e perguntei-me: não terá sido o destino a enviar-me uma mensagem? E que mensagem seria essa? Não deves ler o prefácio. Se tens a obra, por que razão hás-de precisar de uma coisa que é pespegada antes dela para falar sobre ela? Fiquei dividido entre obedecer ao destino e a minha propensão para a perfeição das coisas. Não sei o que me irrita mais: ter um livro com imperfeições ou não atender ao que o destino está a dizer. Adiei a decisão. Talvez amanhã tome uma decisão. Atiro uma moeda ao ar: se for cara, troco o livro; caso seja coroa, fico com ele. Depois do ritual, faço o que me apetecer na altura.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Decisões firmes
Num acesso excessivo de curiosidade, comprei um romance português de um autor desconhecido, ou que eu desconhecia. Reparei depois que vinha galardoado com um prémio literário. Talvez a capa e o título tenham pesado na decisão. Comecei a lê-lo e, passadas umas páginas, comecei a sentir arrependimento. Por que razão comprei mais um livro?, perguntava-me, escondendo-me o vício que tomou conta da minha alma. A prosa é suficiente e o protagonista, como não podia deixar de ser, vive numa melancolia existencialista, mas, como também é óbvio, é um grande amante, embora a amada nem pareça muito disponível para os exercícios amorosos daquele cavaleiro andante deslocado no tempo. Tomei, mais uma vez, a firme decisão de só comprar e ler livros que o tempo tornou clássicos. Pergunto-me, agora que escrevo isto, daqui a quantos dias terei de tomar uma nova decisão firme de só comprar e de só ler aquilo que vale a pena. O tempo de uma vida é curto e a literatura universal parece não ter fim. Influenciado pela minha veia kantiana, formulo, escudado no imperativo categórico, a máxima de não ler nunca mais aquilo que não merece gastar os meus olhos. Pergunto-me se esta máxima pode ser universalizável sem contradição. Descubro que universalizável ela é, mas que entra em contradição comigo. Se todos assim fizessem, quem leria uma linha do que escrevo? Talvez ponha de lado o meu kantismo e me torne um utilitarista. Isto está a ficar doentiamente hermético, e Stuart Mill era claro como a água.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Uma sessão de fisioterapia
Por sugestão do neurocirurgião, estou a fazer fisioterapia. Ele olhou para a ressonância magnética, encolheu os ombros e disse: aqui ainda não tenho nada para fazer. Queria ele dizer: ainda não há nada que exija um cirurgião. Por descargo de consciência, receitou-me a fisioterapia. Por causa das contracturas musculares, acrescentou. Encolhi os ombros e decidi seguir a instrução. Estou arrependido, ou quase. Aquilo é uma seca monstruosa. Uma hora em que acontecem três coisas, para além de me deitar de bruços e de me levantar, meio bêbedo, da marquesa. A fisioterapeuta, depois de me ordenar que dispa a camisa ou o pólo que levo vestido e que me deite, põe uma coisa quente e húmida nas costas, aconchega-a bem aos sítios que imagina serem mais merecedores de atenção e desaparece, talvez se evapore com o calor. E eu fico ali, deitado, a olhar para o chão por um buraco existente na marquesa, onde ponho a cara. Os minutos somam-se, a coisa vai arrefecendo, eu vou pensando na morte da bezerra, até que, como numa aparição, ela volta. Retira a coisa húmida e quase fria. Então, liga-me as costas, em quatro pontos, a uma máquina eléctrica e regula o dispositivo para que me produza um formigueiro em cada ponto. Mal aquilo começa a formigar, torna a desaparecer. Fico por ali, com a bezerra a morrer-me no pensamento, as costas a formigar, sem me mexer, sem olhar para o relógio, apenas a fixar o chão. Quando sinto que passaram pelo menos três eternidades, a fisioterapeuta retorna, desliga-me da máquina e decide dar-me uma massagem. Esta é a melhor parte. Ah… não se pense em coisas dessas. É boa, excelente mesmo, porque dura apenas uns minutos. Acabada a função massageira, recebo a ordem para me levantar com cuidado, não vá cair da marquesa. Assim faço, sinto-me um pouco toldado, visto a camisa e despeço-me. Não me parece ter sido grande ideia cumprir a instrução do médico. Um mero comprimido, uma vez por outra, fazia o mesmo efeito ou um ainda melhor. Nunca fui uma pessoa prática.
domingo, 6 de setembro de 2026
Um problema joyceano dominical
O calor não ajuda ninguém a não enlouquecer. Estou a falar a sério, muito a sério. Vejamos o que temos aqui? riorrente, ante Eva e Adão's, desde desvio de costa até dobra de baía, traz-nos por um commodius vicus de recirculação de volta a Howth Castle and Environs. Isto é uma tradução, por muito que possa espantar. Tradução de quê? Disto: riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs. E o que é isto? São as primeiras linhas de Finnegans Wake, de James Joyce. Não, não é o começo, pois a obra não tem começo nem fim. Assim como Vico considerava a história circular, James Joyce escreveu um romance circular. A primeira palavra surge grafada com minúscula e é a continuação do the que é a última palavra impressa, mas não o fecho. A afecção provocada pelo calor não reside apenas no ter-me inclinado para tão estranho objecto. Apesar de haver traduções, inclusive no Brasil, a obra é considerada intraduzível. Mas o que me preocupou, devido ao calor, foi uma questão de outra ordem. Há um conflito geométrico entre um romance circular e um objecto, o livro, que apresenta um princípio e um fim. O romance circular é pensado como uma sucessão de pontos numa circunferência. Qualquer ponto pode ser considerado o princípio, o fim ou um ponto de ligação entre ambos. Ora, um livro apenas permite uma sucessão de linhas, cujos pontos não são arbitrários. A primeira letra de um romance é apenas a primeira letra de um romance; o mesmo acontece com a última, que não deixa de ser a última, e o mesmo para todas as outras. Ora, Joyce escreveu um romance para o qual não há suporte. Todos os outros têm o livro como suporte objectivo do texto. Joyce escreveu um romance que ninguém, nem ele, sabe onde colocar para que o suporte corresponda à forma da coisa. Foi nisto que meditei nesta tarde calorosa de um domingo de província. Depois, senti compaixão pelo génio de Joyce. O começo de Finnegans Wake nunca deixará de ser, por mais protestos que haja, riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings… Ao génio literário não correspondeu o génio de inventor de suportes de literatura circular. E se riverrun, apesar de minusculado, não deixa de ser o início daquilo que não tem início, o the de A way a lone a last a loved a long the não deixa de ser o fim daquilo que não tem fim. Os domingos são dias difíceis.
sábado, 5 de setembro de 2026
Regressão
Bebo água. É a única coisa que sei fazer com este tempo. Maldito clima, penso, e logo levo o copo à boca. Se não me fosse repetir, falaria da lentidão neuronal que me acomete, mas hoje não estou dado à iteração. Isto, apesar de ser uma pessoa repetitiva. Faço um esforço para não falar muito, o que me mostra uma faceta de cidadão perfeitamente preocupado com o bem dos outros. Poupo-lhes as minhas palavras e as minhas repetições. Entretenho-me a ler romances. Por exemplo, estou a ler o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, que nunca tinha lido, e O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse, que tinha lido há muito. Uma repetição. Confesso que estou a ficar preocupado. Não com a leitura do Doutor Jivago, mas com a de Hermann Hesse. Peguei no livro com o pensamento de que, passados uns parágrafos, o poria de lado. Era coisa de há muitas décadas e que hoje não teria paciência para aquela literatura. A verdade é que não o abandonei, estou a relê-lo com prazer. E é este prazer que me preocupa. Será que estou na segunda adolescência? Se for o caso, então estou a caminho da infância e de ler as aventuras do Pinóquio. O nariz não me cresceu. Volto à água.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Poeiras
Parece que Portugal foi atingido pelas poeiras vindas de um deserto africano. Talvez seja por isso que o dia está pesado. Cinzento e quente, uma luz turva e uma sensação de grande pressão atmosférica. Olho pela janela e penso como seria bom uma bela chuvada, juntamente com uma trovoada. Depois, ficaria tudo mais bonançoso. O estado das coisas, porém, não está inclinado para me satisfazer os desejos. Assim, suporto o que tenho de suportar, coisa que acontece a toda a gente, mesmo aos que acham que não. Devia pensar em diversas coisas, algumas importantes, como fazer uns dias de férias para descansar das férias. Porém, o estado do clima não me permite pensar. Os meus neurónios estão ainda mais lentos, as sinapses demoram imenso a fazer-se. O resultado é que estou a digitar o texto em câmara lenta. Isto é falso. A digitar, sou tão rápido como o Aquiles a correr, embora o meu cérebro seja mais lento que a tartaruga. Por isso, o cérebro vence sempre os dedos da digitação. O deserto africano bem podia ficar com as poeiras; sempre são dele, e ninguém lhas pediu. Há presentes que se dispensam.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Coiote e Bip-Bip
Afinal, ainda estamos em pleno Verão. Por aqui, passou dos quarenta graus. Passei o dia com o meu neto. Refugiados em casa, num cinema, no centro comercial. Esta semana já fomos duas vezes ao cinema, onde vejo coisas que não imaginava ver. Hoje, chegámos a acordo, eu e ele, de que o filme não era particularmente interessante. Girava em torno de duas personagens de desenhos animados de que gostava bastante, o Coiote e o Bip-Bip (Wile E. Coyote and the Road Runner), mas metia humanos à mistura, casos em tribunal, moralidade, daquela de que os norte-americanos tanto gostam, e alguma lamechice, também ao gosto daqueles sítios. Na versão original, os desenhos animados eram muito mais interessantes. Por um lado, exploravam as leis da física para as inverter. Por outro, não ocultavam a violência que existe na natureza, onde a vida se apresenta como uma cadeia alimentar. Pensei, enquanto o filme decorria, que a inversão que a física sofria nos episódios com o esfaimado Coiote e o super-rápido Bip-Bip se ligava a decisões metafísicas. A natureza das personagens fora metafisicamente refeita e era isso que, na nossa ignorância infantil, nos prendia ao ecrã para ver a frustração contínua do pobre Coiote. Chega por hoje. Talvez um dia destes escreva sobre a metafísica do Perna-Longa (Bugs Bunny) ou do gato Silvestre e do sagaz Piu-Piu (Sylvester and Tweety). A idade tudo permite. Ou quase.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Controlo do som
Um bando de crianças treina a voz no parque infantil aqui em baixo. Não as vejo, mas oiço-as. Adoradas crianças e ainda mais adorados pais, amantes da estridência e das agudas vocalizações dos seus geniais rebentos. O episódio recordou-me um outro, ocorrido há muito, talvez num funeral. A uma senhora, antiga professora primária, daquelas que só havia antigamente, já bem entrada na idade, perguntaram-lhe, já não sei a propósito de quê, se não gostava de crianças. Muito, mas só na televisão. Perante a perplexidade dos presentes, esclareceu: mal as oiço, é só desligar o botão. Não serei tão radical, mas também ainda não tenho a idade que a senhora tinha na altura; não seria mau que todas as crianças viessem com um dispositivo, manejável à distância, para controlar o som. O mundo sonoro melhoraria e, imagino, os adultos teriam um vislumbre da verdadeira felicidade. A criancinha decide fazer uma birra, com a intenção de partilhar com o mundo, através do som, a sua infelicidade; a solução mais digna seria pura e simplesmente baixar o som até ele desaparecer. O pequeno insurgente se rebolar-se-ia na ira, até se cansar e descobrir que o caminho da razão é feito de não poucas frustrações. As crianças abandonaram o parque ou então alguém lhes desligou o som. O mundo nem sempre é mau.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Colecção de máscaras
Deixei há muito de ver noticiários, telejornais, como lhes chamam, e agora começo a desprender-me do que vem nos jornais. A realidade incomoda-me, dir-se-á. Na verdade, a realidade sempre foi coisa arisca e dada a incomodar os pobres transeuntes desta caverna. Contudo, mais do que me incomodar, ela faz-me bocejar, e sono já eu tenho que baste. A hipótese mais plausível, segundo a opinião comum, é que estarei a desligar-me da vida. Contudo, tenho outra tese. Desligado da vida estive durante todo esse tempo em que prestei atenção às notícias, cultuei a realidade e sacrifiquei no altar dos acontecimentos. Agora, encolho os ombros e digo: quero lá saber. Então, sinto a vida a fluir, secreta, indiferente, mais pura e mais poderosa. Hoje, deu-me para esta exibição teatral, para pôr a máscara do indiferente e arvorar um ar nauseado, como se tivesse voltado àqueles anos em que navegava nos rios de águas lodosas que eram o absurdo de Camus e a náusea de Sartre, tudo isso, também, uma mascarada. Talvez não seja possível viver de outro modo. Se retiro a máscara do cidadão atento à realidade, logo aparece a do indiferente. E, se retiro esta, logo aparecerá outra. Dos outros não sei, mas de mim sei que não sou senão uma colecção de máscaras. Devia vender algumas e ir passar férias para um lugar onde o Carnaval nunca acabasse, ou então ficar onde estou. A diferença não seria nenhuma.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Adeus, mês de Agosto
Quase me ia esquecendo de assinalar a efeméride. Hoje termina o Agosto de 2026. Nunca mais voltará. Não vale a pena fazer uma avaliação do mês que agora se fina. Não estou dado a exames de consciência, até porque isso implicaria ter consciência, coisa duvidosa, possuir, por outro lado, uma razão avaliadora, objecto ainda mais obscuro, e, por fim, ser dono de uma vontade. Ora, se há coisa que não faz parte da minha propriedade é a volição. Ter vontade é uma coisa cansativa. Há pessoas com vontade de ferro, mas eu desanimo só de pensar no peso do ferro associado ao da vontade. Essas pessoas, diz-se, são os construtores e os conquistadores do mundo. Muito bem. Parabéns. Construam os mundos que quiserem, conquistem os que vos der na real gana. Ainda chegarão a comendadores. E não chegam a viscondes nem a barões porque a nomenclatura caiu em desuso. O que é uma pena, pois um mundo cheio de barões e viscondes é muito mais interessante, a paisagem torna-se mais colorida. O único problema que descortino é bastante desagradável. Os cemitérios estão cheios de construtores, de conquistadores, de barões e de viscondes. Aliás, estão cheios de tudo o que é gente. Até de sem-abrigo. Há forte inclinação democrática na morte. Talvez me tenha perdido. Vinha escrever sobre outra coisa, mas depois a mente transviou-se, a consciência foi inconsciente e a vontade, pela sua ausência, não me trouxe ao lugar de onde queria partir. Adeus, Agosto. Fizeste o teu papel, espera-te o descanso eterno.
domingo, 30 de agosto de 2026
Casamento
Ainda estou cansado do casamento de ontem. Como no jogo do Monopólio, por vezes, a vida traz-nos destas coisas. Ir a um casamento, fazer parte do décor, observar a felicidade alheia e todas aquelas coisas que este tipo de eventos traz consigo. A felicidade dos outros é uma coisa muito cansativa, e nisto não há qualquer inveja. Há muito – talvez desde sempre – adoptei uma máxima que não me tem defraudado: uma felicidade que se exibe e se proclama não é uma felicidade, mas apenas uma exibição e uma proclamação. A felicidade é secreta, avara em manifestações públicas, silenciosa perante terceiros. Mais do que tudo isso, ela é coisa incerta. O que nos faz felizes hoje, amanhã aborrece-nos. Fico sempre espantado, nestes eventos, com as proclamações de fidelidade. Ainda são mais estranhas do que as de felicidade. Não porque a fidelidade não seja um valor estimável, mas porque somos seres humanos e a volubilidade é mais persistente do que a fidelidade. Contudo, nada do que está escrito se deve levar a sério. São apenas impressões de alguém que já não vê bem, nem tem fé naquilo em que as pessoas gostam de ter fé. Preciso de descansar. Também o amor dos outros, quando projectado num ecrã que nem sequer é cinematográfico, é muito cansativo. Alguém me disse: Também estás velho. Foi a coisa mais sensata que ouvi durante todo o evento.