Está calor. Não é uma frase extraordinária, mas é verdadeira. Talvez exista um conflito entre frases verdadeiras e frases extraordinárias. As verdadeiras expressam-se de modo vulgar, ordinário. As outras, apesar de saírem da vulgaridade e da ordem, são falsas. Será a falsidade que as faz extraordinárias. Assim, quanto mais invulgar for uma frase, mais devemos desconfiar dela. Vejamos a seguinte frase: água é um líquido incolor e transparente, insípido e inodoro, composto de hidrogénio e oxigénio, de fórmula química H2O. Obrigado, dicionário da Porto Editora. Eis uma definição vulgar e, por isso verdadeira. Mais do que isso. Ela tem no seu núcleo aquilo que é essencial a uma frase vulgar e, por isso, verdadeira: ser incolor, transparente, inodora e, acima de tudo, insípida. Fico por aqui, pois esta é um contribuição decisiva, note-se, para o problema filosófico da verdade. Esqueçamos as teorias da verdade como correspondência, da verdade como coerência, da verdade como utilidade prática, da verdade como desocultação, da verdade como consenso, e outras que a falta de fôlego mo obriga a omitir. É verdade toda a afirmação ou proposição vulgar. A vulgaridade é o critério epistémico (que palavra horrível) decisivo. O calor afecta o humor e o raciocínio de qualquer ser humano. Eis uma verdade.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Portugal, um grande jogo
Uma grande partida de futebol. Sim, estou a referir-me ao Portugal – Congo. No entanto, percebi a existência de alguma dissonância sobre os objectivos do jogo. Por exemplo, o Congo parecia convencido de que o objectivo do futebol é colocar a bola dentro da baliza adversária. Por certo, um equívoco. Portugal, pelo contrário, apresentou um jogo moderno, supereficiente e altamente rentável. Enquanto os congoleses têm uma visão arcaica, quase medieval do futebol, os portugueses têm uma visão moderna, defensora da economia de mercado, onde a propriedade privada, e não a honra de meter golos, é o objectivo. Assim, 75% de posse de bola foi portuguesa. Este é o objectivo numa economia moderna de mercado, a posse. Depois, enquanto os congoleses pareciam desesperados para se desfazer da bola, os portugueses jogavam com ela. Para o lado, para trás, outra vez para o lado, outra vez para trás. Estes passes dos portugueses são análogos a pôr dinheiro num banco para o ver crescer, acumulando juros, embora esta analogia esteja um bocado ultrapassada, pois os bancos deixaram de pagar juros e cobram taxas. Mas podemos imaginar bancos antigos, dos sérios. Portanto, como os antigos investidores depositavam dinheiro para ele crescer, os portugueses jogavam para o lado e para trás para crescer a sua propriedade. E conseguiram. Coitados dos congoleses, com uma quota de 25% na posse de bola nem têm capacidade para numa assembleia geral de sócios fazer vingar qualquer proposta. Isto é o que acontece a quem acha que o futebol é para marcar golos. A continuar assim, Portugal acabará como proprietário de todas as bolas do Mundial.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Um cromo da bola
Numa prateleira da estante tenho um cromo da bola – do campeonato nacional, não do mundial – que o meu neto me deu. Insistiu que ficasse com ele. Fiquei e pu-lo em exposição. Os netos têm grande poder sobre os avós, mais do que eles sonham. Não faço ideia quem é o jogador, embora saiba quem é o clube, o Estoril Praia. Os jogadores de futebol que melhor conheço já deixaram de jogar há mais de 40 anos. O cromo está num lugar onde avisto Os Lusíadas, de Camões, e o Ofício Cantante, de Herberto Helder, uma das várias edições da sua poesia completa. Certamente, Camões não se interessava pelo futebol, e quanto ao poeta madeirense não faço ideia se ele tinha qualquer interesse pelo jogo. Também avisto por lá a Louise Glück, a Wisława Szymborska e o T. S. Eliot. Ao escrever isto, decido ver, no Google, fotos da Louise e da Wisława. Senti-me mais perto da polaca. Também estou mais perto da poesia dela do que da americana. Ambas ganharam o Nobel, mas a Wisława viveu mais 10 anos do que a Louise. Pode-se perguntar por que razão se está a falar – isto é, a escrever – sobre estas banalidades, coisas que não interessam a ninguém. A razão é simples: sou um coleccionador de banalidades. Por isso, a companhia que dou aos livros de grandes poetas é a mais adequada. Um cromo da bola de um jogador que não conheço, de um clube pouco relevante, apesar de estimável.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Cabo Verde
Acabei de ver o jogo de futebol. Como a maior parte dos portugueses, estive do lado de Cabo Verde e contra Espanha. Esta posição, porém, tem raízes históricas e raízes morais. As morais dizem respeito à propensão que sentimos para, num combate profundamente desigual, tomar partido pelo mais fraco. E Cabo Verde é infinitamente mais fraco do que Espanha. As raízes históricas também são óbvias. Cabo Verde é uma espécie de filho de Portugal, enquanto a Espanha é o nosso inimigo histórico, mesmo que nos digamos irmãos, ou talvez por isso. Os conflitos entre irmãos são dos piores. Uma derrota de Espanha – empatar com Cabo Verde é uma derrota – é sentida quase como uma vitória de Portugal. Não se pense, porém, que este narrador odeia Espanha. Pelo contrário, gosta imenso de Espanha, das cidades espanholas e da forma como vivem os espanhóis; mas nem por um instante queria estar sob o jugo de Castela. O jogo, claro, não foi grande coisa, mas passei duas horas bem passadas, a ver o pequeno David domesticar o grande Golias. Foi muito mais interessante do que ver a Alemanha esmagar o minúsculo Curaçau, uma violência indecente. Esperemos, porém, que não acontece a Portugal, no jogo com o Congo, o mesmo, ou pior, do que aconteceu a Espanha.
domingo, 14 de junho de 2026
Dedicatórias
Ao oferecer um livro, coisa que deve ter caído em desuso, ninguém deveria escrever nele uma dedicatória. O livro que tenho diante de mim, acabado de escrever no dia em que fiz seis anos, tem uma dedicatória. Não consigo perceber a assinatura – melhor, só percebo o apelido – mas, pela letra, parece de autoria de uma mulher. Reza assim: Que a tua vida seja sempre banhada de Sol e que nunca a neve derreta. O desejo expresso não foi suficiente para reter o livro no proprietário ou nos seus descendentes. Acabou num alfarrabista, onde o comprei. A dedicatória não será amorosa. Talvez a de uma tia para um sobrinho. Talvez de uma madrinha para um afilhado. Talvez de uma amiga para um amigo. O facto de apresentar o presentado com alguém do sexo masculino é uma presunção sem qualquer fundamento. Voltando ao princípio. Uma dedicatória exprime uma vida interior a que só o que recebe a oferta deveria ter acesso. Quando um livro é vendido a um alfarrabista, a dedicatória entra no espaço público e fica à mercê de qualquer voyeur que pegue na obra e decida ler aquilo que não foi dirigido a si. Eu, por exemplo, não resisto a este tipo de literatura. Tenho mesmo livros em que as dedicatórias são mais interessantes do que a própria obra. Não devia lê-las, mas leio sempre e, se esses velhos livros não trazem dedicatórias, o que acontece a maior parte das vezes, fico decepcionado. Cada um tem os pecados que tem.
sábado, 13 de junho de 2026
Entusiasmo
Um sábado de Junho como se estivéssemos no pino do Verão. Trinta e nove graus. Recolho-me em casa. Dia propício para o desporto de sofá. Mundial de futebol e as 24 horas de Le Mans. Se fosse adolescente, poderia ser prometedor. O entusiasmo das corridas de automóveis e dos jogos de futebol. Há bocado, vi a partida e as primeiras voltas de uma das mais míticas corridas de automóveis. Fiquei a olhar perplexo. Não pelo que estava a acontecer na pista, mas com o meu antigo entusiasmo. Queria encontrá-lo, mas nada vi de entusiasmante. Esta experiência também me acontece com o futebol. Depois de bocejar, pensei que estas competições nada têm de interessante. Era eu, na verdura dos anos, que projectava nelas o meu entusiasmo. Talvez lhe quisesse encontrar um objecto para desculpar esse estado patológico. No mundo, penso agora, nada há de entusiasmante, mas nós, seres humanos, nascemos com uma dose de entusiasmo – uns mais, outros menos – e aplicamo-nos a justificá-lo, dando-lhe focos de interesse. Depois, há alguns que curam a doença, outros que vão trocando o objecto a que aplicam a dose de entusiasmo com que vieram ao mundo e outros, talvez os mais felizes, mantêm-se fiéis ao objecto inicial. Se não estivesse curado, teria muito para ver neste sábado de Junho, dia revestido com os calores vindos do inferno.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Manivelas e manípulos
Por vezes, sinto necessidade de mudar de cadeira do escritório. Faço-o quando ela começa a ser incapaz de me poupar as costas. Por norma duram muitos anos. A que tenho terá uns quatro anos. Não sei bem. Talvez, na altura da compra, me tenham explicado o funcionamento de todas aquelas manivelas e manípulos com que essas cadeiras, mesmo por baixo do assento, são decoradas. Ela veio para casa já afinada à minha posição e tem cumprido, com esmero, a sua função. Se me doem as costas, a culpa não é dela. Contudo, havia uma sombra. Por mais que mexesse nas manivelas e manípulos, as costas da cadeira eram inamovíveis. Sonhava, por vezes, recliná-la para dormir uma sesta. Nada. Pensava: sou estúpido. Ou comprei uma cadeira que não mexe as costas, ou não consigo desvendar o modo como isso se faz. Ainda por cima, com larga experiência em cadeiras que não recusaram, em momento algum, inclinar-se. Tinha desistido. Hoje porém, inadvertidamente, mexo num manípulo. Deslizou. Fiquei curioso. Procuro rodá-lo. Consigo e, milagre, as costas da cadeira cedem, e eu reclino-me como se fosse dormir. Claro que não fui. Decidi escrever este texto. Não interessa a ninguém, mas assinala o momento em que descubro como posso dormitar com mais comodidade à secretária. As minhas relações com a cadeira eram tensas, mas apaziguaram-se, apesar de ela ter sussurrado qualquer coisa sobre a minha estupidez. Que burro, terá dito. Perdoo-lhe, desde que continue a reclinar-se. É preciso estar focado no que interessa.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Buracos no tempo
Quando saí, hoje de manhã, não havia gente pelas ruas. Aproveitaram o feriado para se esconderem, para se retirarem da praça pública. Talvez seja para isso que servem os feriados. São esconderijos no tempo. Abrem buracos na teia do calendário e as pessoas, caso tenham siso, aproveitam-nos. Já ninguém – isto será uma generalização precipitada – distingue os feriados religiosos e o cívicos. Olham para eles como buracos do tempo e ficam gratos. As pessoas cansam-se de exibir o rosto aos outros, de lhes mostrar o corpo e de ter de gastar palavras. Benditos feriados. Contudo, este é um equívoco. O dia de Portugal devia ser o 5 de Outubro. Foi a 5 de Outubro que começou a Monarquia portuguesa, foi a 5 de Outubro que começou a República portuguesa. Dito de outra maneira: foi a 5 de Outubro que Portugal começou e foi a 5 de Outubro que Portugal recomeçou com outra cara. Talvez já tenha escrito isto. Desde 2017 e ao fim de 2560 entradas, é possível que não pare de me repetir. Se o fiz, ninguém quis saber e pôs fim a essa irracionalidade de um país nascer numa data e ter o seu dia noutra. Nem acabava com o 10 de Junho. Era dia de Camões e da Língua Portuguesa. Contudo, os agentes políticos desconfiam dos portugueses, têm medo de que se revoltem por haver um dia dedicado apenas a um escritor e à língua que ele inventou. Em resumo, estou a ficar um velho rabugento, a protestar com coisas que ninguém quer saber, nem eu, nem Camões, nem Portugal, nem a Língua Portuguesa, coitada, martirizada pelo Acordo Ortográfico de 1990, que a rebaixou de tal modo que ela perdeu o ânimo e nem protesta. Mas devia.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Amores fáceis
Por norma, não sou um consumidor do tipo de ficção escrita pelo norte-americano H. P. Lovecraft. Descobri, no entanto, uma frase sua que não teria horror em fazer minha: Tudo o que amei está morto há dois séculos. Encontrei-a numa revista, cujo nome e natureza omito. Para acertar o passo com o escritor teria de escrever: Tudo o que amei está morto há três séculos. A frase não seria verdadeira, claro, mas teria impacto num eventual leitor de orientação conservadora. Viver antes do triunfo dos valores do Iluminismo não seria para mim e, provavelmente, para Lovecraft boa ideia. Os tempos eram duros para a maioria das pessoas e eu estaria, por certo, entre essa maioria. Muitos cultores do passado, não todos, fazem-no porque vivem num presente que lhes ofereceu a oportunidade de uma vida que esse passado lhes recusaria. Há nisto uma batota existencial. Diz-se amar uma coisa sem correr qualquer risco de ser confrontado com ela. A culpa disto é não haver viagens no tempo. Quem amasse, por exemplo, a vida do século XVII, seria enviado para esse tempo e para a condição social que então era a dos seus antepassados. Contudo, a realidade foi construída de modo a evitar que as pessoas amantes desses passados tenham de provar o seu amor. E assim podemos proclamar que tudo o que amamos está morto desde que a roda foi inventada.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Guerra de nomenclaturas
Oiço um sino, mas este não entra em comandita com o tempo para enterrar o dia. Esse era o de Burnt Norton, do primeiro quarteto de Eliot. Aquele que ressoa nos meus ouvidos é um sino mais prosaico e, por certo, mais pobre. Talvez seja um sino da anunciação, mas não descortino o que ele anuncia. Se fosse mais tarde ou noutra época do ano, seria o anúncio do crepúsculo, mas agora ainda falta muito tempo para que chegue a antecâmara da noite. Há, na rua, uma luz vibrante, batida pelo vento. As sombras crescem lentamente sobre o chão, enquanto oiço a minha neta mais nova, vinda por uns dias, dirimir uma batalha contra a Matemática. Vai ter aquilo que no meu tempo de estudante se chamava exame, mas agora, no final do nono ano, que dantes era o quinto, tem o nome de prova final. Nunca compreendi o que vai na cabeça das pessoas que inventam estas substituições de nomenclatura. Passei o meu tempo escolar a fazer exames, nunca me incomodou o nome. Talvez o supremo arquitecto destas alterações pense que adolescentes de 14 ou 15 anos fiquem traumatizados com a palavra exame, por ela vir do latim. Então, substituíram-na por uma expressão cujas palavras também têm a sua origem no latim, mas como são duas o efeito traumático de cada uma é anulado pela outra, e os adolescentes entram na sala, despreocupados, como se fossem à praia, que dali não vem mal ao mundo. Pior seria fazer um exame, agora uma prova final, significa que se tem de passar pela provação de estar sentado e depois tudo acaba, pode-se ir para a praia ou almoçar com os amigos. O sino parou, a luz continua a vibrar. Pertenço a outra era, penso, onde os sinos tocavam mais vezes, enterrando dias e noites, enquanto fazia exames, cujo começo e fim era desencadeado pelo troar de uma sineta ou de uma campainha, ou sei lá de quê. Vou procurar um restaurante para levar a exame a pobre adolescente, cheia de provas finais, desejosa de praia.
domingo, 7 de junho de 2026
Voar e cantar
É inusitado um filósofo – o canadiano Charles Taylor – começar com uma confissão, ainda por cima uma confissão de impotência, um tratado. Não será preciso, porém, andar há muitas décadas sobre este planeta para saber que, no momento da confissão, a impotência está ultrapassada. Trata-se de uma das suas mais importantes obras Sources of the Self (As Fontes do Self, na tradução brasileira). O Prefácio começa assim: Foi muito difícil para mim a redacção deste livro. Ela se prolongou por vários anos, e mudei algumas vezes de ideia quanto ao que deveria ser nele incluído. Isso se deveu, em parte, ao motivo tão comum de que, por um longo tempo, eu não tinha a certeza do que queria dizer. Ora, o que me interessa não é a confissão do autor, mas a sua experiência de não ter a certeza do que queria dizer. Isso acontece comigo sempre que me sento para escrever seja o que for. Não sei o quero dizer. Não tenho objectivos, não tenho um alvo a atingir. Começo a escrever e a escrita vai ocupando o seu espaço. Esta história confessional de Taylor deve ser interpretada de modo metonímico. Toma a parte pelo todo. O todo é a vida, a parte é a escrita. Posso dizer que não apenas nunca sei o que quero dizer, mas também nunca soube o que queria da vida. Escrevi-a sem objectivos, conforme os vocábulos me surgiam. Contudo, isto não é o mais grave. Mais grave do que uma pessoa não saber o que quer da vida é não saber o que a vida lhe quer. Suponho que a vida ao trazer alguém a ela há-de ter alguma finalidade, há-de querer alguma coisa daqueles a quem chama. Tenho meditado não poucas vezes sobre isso e contínuo como no princípio. Não sei o que a vida quer de mim. Chego mesmo a cair na tentação céptica de dizer que é impossível saber o que vida quer de quem quer que seja, para não falar dos momentos mais escuros que, num ateísmo biológico, nego obstinadamente que a vida queira alguma coisa de alguém. E se ela não quer nada de mim, o mais sensato é não querer nada dela. Não lhe pedir nada, ignorando-a na desfaçatez do seu silêncio. Hoje é domingo, o sol brilha. O vento faz dançar as folhas das acácias, enquanto os pássaros meus vizinhos cantam. Parecem felizes por não saberem o que querem da vida ou o que a vida quer deles. Voam e cantam.
sábado, 6 de junho de 2026
Vícios privados
Bernard de Mandeville era um astuto observador da sociedade. Tão astuto que escreveu uma obra a que deu o nome de A Fábula das Abelhas. Isto no início do século XVIII. Não foram poucos os que indignaram com o escrito. A obra era uma constatação da natureza da sociedade em que vivia e, acima de tudo, uma profecia. A tese central da obra defende que os vícios privados trazem benefícios públicos. As pessoas ao agir por ganância, vaidade, inveja e egoísmo vão dinamizar a economia e tornar a sociedade mais próspera, o que conduzirá a que todos beneficiem da corrupção dos costumes, dos vícios privados. Por outro lado, a conduta virtuosa tornará a sociedade cada vez mais pobre e irrelevante. Pensei tudo isto ao olhar pela janela, para os carros que iam passando sem pressa pela avenida. Depois, concluí que não é benéfico olhar pela janela aos sábados. O que se vê detona pensamentos que não se devem ter. Temos o dever de ser caridosos e não ver nos outros a vaidade que têm ou a inveja que ostentam. Depois, deve-se seguir a antiga máxima: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Não sei se é boa ideia juntar no mesmo texto uma passagem evangélica e a fábula das abelhas, mas foi aquilo que me ocorreu.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Mentir a si mesmo
Há muito que prefiro ler ebooks do que livros em papel. Existem várias razões que não vou trazer à colação. Basta-me uma: tenho prazer em ser iludido. Explico: a letra num livro de papel é inalterável. Tem uma dimensão eterna. Num ebook, pode ser manipulada, dentro de limites, claro. Aumento-lhe a dimensão e fantasio que os meus olhos estão perfeitos. É uma mentira a si mesmo, mas que não traz mal ao mundo – quem se importa com essa mentirola? – e nem a mim. Somos seres frágeis e não suportamos demasiada realidade nem excessivas verdades. Por isso, mentir a si mesmo não é uma falta moral, mas um exercício terapêutico. O caso seria grave se tentasse iludir a oftalmologista que me olha no fundo dos lhos. Ela, porém, é inexpugnável. Pauta a sua observação pela mais estrita racionalidade e não me dá tempo para fantasias. O curioso, porém, é que ela também deve mentir a si mesma, pois, como eu, recorre a ebooks. E, por certo, quando lê, aumenta o tamanho da fonte e imagina que vê perfeitamente. Sei que ela lê ebooks porque já discutimos sobre eReaders. Contudo, nenhum confidenciou a que fantasias se entrega ao ler. Isso evidencia que a relação se mantém na estrita dimensão de médica – paciente, prestadora de serviços – cliente. E é assim que se deve manter. Aliás, o melhor é que as nossas fantasias se mantenham estritamente privadas, que sejam uma mitologia a que mais ninguém tenha acesso. O pior que pode acontecer é deparamo-nos com alguém que quer partilhar publicamente as suas fantasias. Não estarei eu a partilhar uma fantasia? Não, pois sou um narrador, e um narrador não existe. Ora, só o que existe pode fantasiar coisas que não existem.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Metamorfoses
Não dei por hoje ser feriado, pois todos os dias passaram a ser feriado. A realidade suspendeu a força coerciva sobre mim, até que outra realidade suspenda definitivamente tudo. Uma viagem rápida à capital de distrito e um almoço numa terra que se intitulou capital do cavalo. Não vi nenhum, pelo menos reconhecível como tal. Sabe-se, porém, que há muitos cavalos disfarçados. Passam por nós e parecem-nos seres humanos, mas não são. Aliás, só um entranhado hábito nos leva crer que quando deparamos com um homem ou uma mulher é um ser humano que vemos. Esta crença, porém, está longe de ter provas fundadas. Quantas vezes, aqueles que passaram por nós como humanos, ao cortarem para outra rua se apresentam como cavalos, ursos, hienas, leões. Por certo ter-me-ei cruzado com alguns cavalos e não é improvável que tenha partilhado o restaurante com outros. Todos bem disfarçados. Não relinchavam e, quando se levantavam das mesas, não se punham a trotar. Andavam como seres humanos com o propósito de me enganarem. O mundo está cheio de metamorfoses, e, como fomos ensinados desde crianças, nem tudo o que parece é. Eu próprio…
terça-feira, 2 de junho de 2026
Homem do presente
Tinha pensado escrever sobre uma das mais famosas frases de Nietzsche: O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem. A ideia era comparar a superação do homem proposta pelo pensador alemão com a superação proposta pelas correntes transumanistas e pós-humanistas. A primeira alicerçada na ética e na vontade, a segunda na tecnologia. Depois, o barulho de um berbequim a perfurar o cimento no prédio, os gritos de adolescentes à espera da aula no Centro de Línguas e a preguiça que faz parte da minha natureza, tudo isso junto fez-me desistir de tão estouvado projecto Não quero saber de super-homens, dotados de uma supermoral nascida de uma supervontade, nem de homens hibridados com a tecnologia, que não serão já homens. Convivo bem com a minha humanidade limitada, frágil, mortal. Não quero ter uma superinteligência alicerçada num chip implantado no cérebro, basta-me a minha estupidez natural. Não quero um moral de super-homem, bastam-me as morais humanas. Não sou um homem do futuro, dirão. Claro que não. O futuro é aquele lugar em que estaremos todos mortos, mesmo os super-homens, mesmos os híbrido pós-humanos. Devia ir dormir uma sesta, actividade humana, demasiado humana. Talvez o faça.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Dentro da sonolência
A tarde amadureceu dentro da minha sonolência. Não havia nela um devaneio onírico pois nunca sonho. Consta que esta última afirmação é falsa. Todos sonham, quer dêem por isso, quer não. Eu serei dos que não dou por isso. O que é uma vantagem. Deixe-se de lado a teoria do sonho e aceite-se que nunca sonho. Todo o texto precisa, para ser verdadeiro, de afirmações falsas, pois a verdade textual não reside no facto de todas as afirmações corresponderem à realidade, mas num outro lugar, na coerência que essas afirmações têm com a totalidade do que está escrito. Ora, a tarde madura avança, liberta já da minha sonolência, o que faz desta uma mãe produtiva. Gera alguma coisa que dá à luz para se tornar autónoma e caminhar por aí fora. Gostaria de pensar em coisas mais importantes, mas não encontro nada que o mereça. Por isso, deixo-me dormir, mesmo quando escrevo o que estou a escrever.
domingo, 31 de maio de 2026
Injustiças
Perdi-me neste domingo. Acordei e já estava perdido. Daí para cá, a situação só piorou. Talvez a causa resida num facto prosaico: hoje é o último dia do mês de Maio. Para todo o sempre, jamais haverá um Maio de 2026. Estas coisas são irrevogáveis. Há nesta irrevogabilidade uma farsa metafísica. Uma coisa que ainda é, presta-se a deixar de ser, tornar-se um nada. Contudo, os actores não são os melhores, apenas os que havia e este mês de Maio era o único que havia para representar o Maio de 2026. Logo, à meia-noite, o público baterá palmas ao mês que se vai, mas ninguém pedirá bis. Nem sequer um encore. Isto introduz a injustiça com que as coisas, neste mundo, são tratadas. No fim de um concerto, o público, por delicadeza ou entusiasmo sincero, aplaude até que haja um prolongamento. A nenhum mês, apesar de ter concertado os dias da semana, se solicita nem mais um segundo. Eis uma face da injustiça neste mundo. Não se pense que os concertos não têm em si um sentimento de injustiçados. Por vezes, num jogo de futebol há um prolongamento, uma espécie de encore desportivo. Contudo, se o público for muito insistente, ainda tem direito ao desempate através de pontapés na marca da grande penalidade. Coisa que nunca ocorreu, tanto quanto sei, num concerto musical. E, por certo, também o futebol se sentirá injustiçado, quando se compara a alguma coisa – que neste momento não me ocorre – que tem sobre ele uma vantagem qualquer. Num mundo como este, polvilhado de grãos de injustiça, como poderia deixar de estar perdido? Não podia, por mais que suspirasse pela norma justa que me levaria ao encontro comigo mesmo.
sábado, 30 de maio de 2026
Um resto de madrugada
Saí de manhã para caminhar. Ainda havia um resto de madrugada, por onde entrei e tentei conservar até ao fim. A madrugada é aquele momento do dia em que tudo é mais puro. Encerra todas as promessas do mundo, todas as possibilidades estão abertas. Contudo, como todas as coisas belas, ela é efémera, demasiado efémera. O que restava dela, quando saí de casa, esvaiu-se por entre os dedos, enquanto a tentava segurar, para participar, por instantes, naquela beleza que o correr das horas corromperá. Pensei: amanhã terei de sair ainda mais cedo. Como seria bom caminhar ao romper do sol. Nessa hora, seria completo e traria em mim todas as possibilidades que não tenho. Sorrio perante a ingenuidade do desejo. Outro desejo mais forte triunfará, o do corpo sentir o aconchego da cama. A vida, ocorre-me, é um conflito entre desejos e há aqueles que são mais fortes do que os outros, sobre os quais exercem o seu império. Suspendo o pensamento e apago os desejos. As paredes dos prédios, batidas pelo sol, reverberam. Sou um animal sem nome, um instante cintilante como uma aparição. Os pássaros calaram-se. Calei-me com eles.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O peregrino
Dei por mim a olhar para o relógio. São cinco da tarde, constatei. Como cheguei aqui, a esta hora, sem que desse por ter feito algum caminho no tempo. Ah, como és idiota. Rosnou o homúnculo que vive no subsolo da minha consciência. Não sabes que não há caminhos no tempo? Caminhos, só no espaço, mas é preciso que alguém os abra. Ninguém caminha no tempo, continuou, rindo-se do meu ar estupefacto. O tempo é que caminha por ti. Melhor, caminha por todas as coisas. Como uma cobra, ele desliza por dentro de tudo o que existe. As coisas que parecem envelhecer não envelhecem, desgastam-se. É o caminhar do tempo que as desgasta. É um caminhante terrível e poderoso, pois a sua passagem nada deixa incólume, acrescentei eu, de modo conciliador, desejoso de obter a concordância do homúnculo. Não, não é um mero caminhante, respondeu. É um peregrino que esqueceu a pátria de onde veio e não sabe a que santuário se dirige. É cego, surdo e mudo. Limita-se a um peregrinar sem fim, com a esperança de que, por acaso, encontre o lugar que espera.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Desengonçar
Cansa-me este Maio que se recusa a ser primaveril e se veste de Verão, armado com os raios do calor, protegido pelo escudo da impotência humana. Não há quem o ponha na ordem e ele inunda a cidade com um bafo escaldante. Como um animal temeroso, escondo-me em casa, esperando, para sair, a vinda benévola da noite. O tempo, tomado por clima, desengonçou-se quando o homem foi à Lua. Não, não fui eu que pensei tal coisa, mas fui eu que a ouvi há algumas décadas. A explicação ingénua não será totalmente errada. Se a ida à Lua for tomado como um símbolo do modo de vida que permitiu essa aventura, haverá alguma verdade. Talvez desengonçar seja um verbo branco. Todos os verbos brancos são invisíveis. / Giram em torno de actividades que não se aprendem. / Chamam-se desaparecer, apagar, morrer / E conduzem a lugares desabitados. / Imperceptíveis, deslizam pelo espaço. Isto escreveu o poeta Durs Grünbein, no seu livro de poemas Velas de Ignição. Na verdade, ele não escreveu isto, quem o escreveu foi a tradutora. Ele terá escrito algo equivalente, mas em alemão. No resto do poema, o autor dá outros exemplos, mas não desengonçar. Se ele tivesse ouvido aquilo que ouvi, não se teria esquecido do verbo que explica a doença destes dias absurdos. Também eu me desengoncei e não foi porque alguém tivesse ido à Lua. Parece ser a natureza das coisas, se é que as coisas têm uma natureza.