O dia acinzentou-se, primeiro, e, depois, enegreceu. Isto não é uma descrição empírica do dia. É uma descrição do mundo. Também não. Já sei. É a descrição de um estado de espírito de alguém prestes a entrar pela avenida sem retorno de uma patologia mental. Também não. É apenas um conjunto de palavras lançadas num monitor que mimetiza a velha folha de papel. Uma modalidade de ocupar o espaço com texto, quando não se tem nada a dizer. Recordo-me do tempo em que escrevia os trabalhos da faculdade, ainda não lhes chamavam ensaios, numa máquina de escrever. Um suplício. Escrever num teclado com um monitor à frente é uma prova do progresso moral do mundo, um desmentido de que as coisas vão do cinzento para o negro. Progresso moral? Não será antes do progresso técnico? Sim, por certo, será uma evidência do progresso técnico, mas a verdadeira melhoria é de carácter moral. Com uma máquina de escrever, quem tinha paciência para fazer e refazer continuamente o texto? Ninguém. Tudo era pesado e lento. Agora, é só apagar e voltar a escrever. Escrever numa máquina era uma tortura, o cumprir de uma pena. Escrever num teclado é uma ascese, o exercício em busca de um texto virtuoso. Então, por que razão estes textos são tão desprovidos de virtude? Pergunta-me o homúnculo que habita na cave da minha mente. Encolho os ombros, bocejo e hesito em responder-lhe. Ele lança-me um olhar desafiador. Respondo: a vida virtuosa é um processo e não um resultado. O importante, continuo, não é que o resultado seja virtuoso, mas que eu me exercite em busca dessa virtude. Ele olhou-me e, sem se rir, afirmou: Sim, claro, o importante não é ganhar, mas jogar. Sim, disse eu, é isso mesmo. Se treinasses um clube meu, despedia-te agora. Seria a única acção virtuosa, acrescentou. Olhei pela janela e o cinzento do dia estava mais escuro.
sábado, 14 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
Em A4
Quando recebi a encomenda estranhei a dimensão. Tinha comprado um livro e o pacote apresentava uma configuração que pouco se coadunava com as dimensões habituais. Abri-o e deparei-me com uma obra publicada em A4. Tanto quanto me lembro, nunca tinha visto um livro de Filosofia com essas dimensões. Imagino que, na Europa, a obra – Three Rival Versions of Moral Enquiry, de Alasdair MacIntyre – esteja esgotada, e que a Amazon tenha a permissão de fazer a reimpressão. Foi ela que imprimiu o livro que recebi, segundo nota na última página. Parece tratar-se de uma edição print-on-demand. Com idade que tenho, estou por tudo, mas um livro em A4 quase me ofende. Não se trata de injúria estética, mas moral. Um livro de Filosofia em A4 não é um livro de Filosofia, mas um manual escolar. Ora esta obra de MacIntyre é tudo menos isso. Poder-se-ia argumentar que nem tudo é mau na opção, os caracteres serão benevolentes para olhos gastos. Pura ilusão. São normais, isto é, têm tendência para encolher. As margens são enormes, verdadeiras planícies de uma brancura imaculada. O texto quase se afoga naquele branco. Pior do que isso será o tormento da minha neta. Chegou há pouco, mas já está sob o jugo da Matemática ou da Física ou de qualquer coisa que não tem nome. Submete-se à realidade. Os livros que tem não têm grandes margens em branco, mas, desconfio que, apesar de estarem preenchidos de imagens e textos, é como se estivessem em branco. De vez em quando olho para um e não sei o que pensar. Parece-me um labirinto sem saída, um exercício de distracção para perder os adolescentes que se adentram neles sem um fio de Ariadne. Apesar de coloridos, são de uma brancura acima de qualquer dúvida. Não imaculada, mas de um branco-sujo fruto de um qualquer pecado original. Isso, porém, não são contas do meu rosário. Do meu, é ler um livro em formato A4, meia resma de papel que nem para imprimir já serve. Em vez de ler, vou marcar restaurante para o jantar, para um sítio que a pobre adolescente goste.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Instinto terapêutico
Há coisas no mundo que não compreendemos. Estamos mesmo convencidos de que nunca saberemos o seu sentido, pois compreender uma coisa é saber-lhe o sentido. Uma delas, que, sem me atormentar, não deixava de criar em mim perplexidade, foi resolvida hoje, ao ler, na transição da primeira para segunda página do romance A Prova, do argentino César Aira, o seguinte: Ninguém lhe tinha recomendado que andasse a pé; fazia-o por um instinto terapêutico. Quando li “instinto terapêutico” tive uma iluminação e soletrei, não sou de gritar, Eureka! É a chave para um enigma que nasceu de encontrar não poucas pessoas que, não tendo formação na área da saúde, estão sempre prontas a oferecer diagnósticos, receitar terapias e desenhar prognósticos. Este comportamento que sempre me pareceu irracional encontrou agora a chave que lhe confere um sentido. Nasceram com instinto terapêutico. E o instinto é tão forte que elas não conseguem conter o seu desejo de remediar os males de quem delas se aproxima. Isto, porém, é apenas um ponto de vista. O problema pode ser meu e não desses facultativos. Imaginemos que todos vêm ao mundo com instinto terapêutico. Ora, falta-me em absoluto esse miraculoso poder. Sofro de uma deficiência e, em vez de aproveitar as consultas gratuitas, convenço-me de que sou normal; nada me falta. São esses os saudáveis detentores de todos os instintos que sofrem de uma patologia comportamental, convenço-me. Não perderiam nada, digo a mim mesmo, em fazer terapia de grupo para se curarem e deixarem de receitar colírios a torto e a direito.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Máquina taxionómica
Ao ler alguns poemas de Rui Lage, do livro Física Espiritual – antologia pessoal, pensei que existem dois tipos de poetas: os sensíveis e os inteligíveis. Rui Lage é um poeta do sensível. Veja-se a primeira estrofe do poema “Eira”: Ateada a palha com isqueiro furtado, / víamos a chama cevar / de puro tédio ou furor inocente, / até nos simularmos sapadores / e apagarmos o incêndio com tábuas / e terra lançada às labaredas. Tudo no poema parte da experiência sensível, de um ver o mundo dado pelos sentidos. Do outro lado da contenda, podemos de imediato mobilizar, como exemplo, a primeira estrofe de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa: Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. O sensível e o inteligível, usados como etiquetas classificadoras, têm uma origem nobre: Platão e a dualidade ontológica entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Contudo, alguém poder-me-ia acusar de cair numa falácia, a do falso dilema: divides a poesia em duas classes, o poeta ou é metafísico ou é físico, mas isso é redutor. Há pelo menos um outro género de poetas: os que fundam a poesia não na sensibilidade ou no intelecto, mas na imaginação. Perante o acusador, só posso reconhecer a sua razão. O poema de abertura de A Colher na Boca, de Herberto Helder, é um belo exemplo disso, como mostra o início da primeira estrofe: Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo. / Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer, / sorrindo com ironia e doçura no fundo / de um alto segredo que os restitui à lama. Poderia dizer as coisas de outro modo. Há poetas do campo, como Rui Lage, poetas da cidade, como Fernando Pessoa, e poetas das ilhas, como Herberto Helder. O campo é um exercício sensorial, a cidade exige um mapa conceptual e as ilhas são devaneios perdidos no mar. Foi o que me ocorreu hoje. Amanhã, pensarei de maneira diferente e proporei uma outra classificação. Sou uma máquina taxionómica.
terça-feira, 10 de março de 2026
Nomes
Às oito a manhã chegou ao fim o primeiro terço deste Março de 2026. Não sei o que dizer destes dez dias e oito horas. Não encontro sequer um nome exacto para lhe atribuir. Byung-Chul Han, na página 142, da tradução portuguesa de Rostos da Morte – Investigações Filosóficas sobre a Morte, escreve: Se Heidegger tivesse tematizado o nome humano em Ser e Tempo, tê-lo-ia definido sem dúvida como simples ferramenta ou simples instrumento de designação que serve para designar um homem. Mas nada mais lhe seria atribuído além dessa utilidade. Fiquei demoradamente a meditar sobre o assunto. Claro, um nome é um designador. Podemos dizer, com Saul Kripke, que é um designador rígido. O meu nome, apesar do anonimato a que me remeto, é um designador rígido: em qualquer mundo possível onde eu exista, o nome continua a referir-se a mim, e não a qualquer outra pessoa ou narrador. Este persistência na designação presente no nome deve fazer-nos desconfiar da perspectiva atribuída a Heidegger. Os nomes tornam-se parte de nós, do modo como somos o que somos e como estamos no mundo. Se tivesse outro nome, seria outra pessoa. Quando pensamos em nome, num primeiro momento, vemo-lo como fruto de uma qualquer arbitrariedade (a escolha de quem no-lo deu), só uma demorada reflexão abre o caminho que permite perceber que sob a capa do arbitrário se esconde algo de mais essencial. Cada um, queira ou não, tem de fazer jus ao nome que ostenta. O nome, e não me refiro aos apelidos, não é imponderável. Tem um peso, uma gravidade, digamos assim. Um equívoco seria pensar que agirmos segundo o nome que nos foi dado é apenas um hábito, uma segundo natureza, como diria Aristóteles. Ele, porém, faz parte da primeira natureza, do ser que também, de modo arbitrário, nos foi dado. Existência e designação têm as suas raízes numa arbitrariedade e é isso que as funde e constitui o ser que somos. O meu problema, porém, é que não encontro um nome para dar ao primeiro terço deste mês de Março. Se o tivesse, saberia o que dizer dele, para comemorar a efeméride. Assim, resta calar-me.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Retorno
Hoje, comprei as primeiras amêndoas. Numa confeitaria do Porto, produto da casa. Também têm bolo-rei, mas contive-me. Foi uma despedida da cidade com honra, depois de uma estadia óptima, tudo motivado por um concerto. No regresso, decido almoçar junto a Leiria. Oiço, durante a viagem: Nada de carne. Registo e continuo concentrado na condução, aliás plenamente de acordo com a declaração. Chegado ao restaurante, consultada a carta, sugiro pratos de peixe e pergunto: e então? Que tal o cozido à portuguesa, oiço. Naquele momento, convenci-me de que o cozido à portuguesa seria um prato de peixe, talvez mesmo vegetariano, e respondi: é isso mesmo que me está a apetecer. Não me arrependi. Saí com vontade de regressar. O pior de tudo foi a paisagem. A devastação da floresta. Árvores enormes arrancadas pelas raízes, eucaliptos cortados a meio do tronco, paisagens de uma distopia que prediz o fim do mundo. Depois dos temporais, ainda não tinha passado por aqueles lados. Uma coisa é saber pelas notícias, outra é ver. Isto são lugares-comuns, mas os lugares-comuns são formas de sentir em comum, de partilhar o sentido da dor, também da alegria. Por vezes, são a salvação da linguagem, para que ela possa ainda expressar o que não se pode expressar. E o que aconteceu resiste bastante aos avanços da milícia do vocabulário. Há que aproveitar a banalidade para dizer o que não tem nome.
sábado, 7 de março de 2026
A queda
Deixei cair a noite antes de vir aqui escrever. Para esclarecer o que disse, afirmo que trazia noite nos braços. A princípio era leve, mas quanto mais caminhava mais pesada se tornava a noite. A certa altura, impotente e de braços esmagados pelo peso, deixei-a cair. E ao cair, ela tornou-se um pássaro, depois perdeu o peso e ficou a flutuar sobre a terra. Não me peçam para explicar estas metamorfoses ontológicas da noite. Deixei-a cair, isso basta. Sentado no escritório, olho para a rua e vejo-a. Ainda bem que não casei com ela. Seria uma humilhação infinita, tê-la nos braços a caminho da câmara nupcial e deixá-la cair. Certamente, ela pediria o divórcio ainda antes da consumação do casamento. Não se tratando de um caso matrimonial, o problema é menor. Ela poderá invocar que é um caso de incompetência no serviço de transportes e pedir uma indemnização à empresa transportadora de dias e de noites. Serei alvo de um processo disciplinar e, antecipando o desfecho, de um despedimento por justa causa. Não se trata assim uma cliente tão assídua, que paga a tempo e horas. Se me escapar do ordálio e continuar a transportar a noite, peço-a em casamento. Imagino que, sentindo-se noiva, fará dieta, irá ao ginásio, tornar-se-á mais leve e eu depô-la-ei no chão do mundo com o cuidado com que um homem depõe no leito a mulher amada. Olho pela janela, ela acena-me, sorrio, ela também. Ainda é cedo para anunciar o noivado, sussurra-me.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Virtude
Tenho andado distraído e só agora reparei que Março vai no sexto dia. Aliás, um dia pouco propício, inclinado para a ventania e dobrado a um frio que se transfigura em memória de infância. Só naqueles dias havia frios destes, só neles o vento soprava de uma maneira que abria as ruas à incontinência da serra. O relógio informou-me que é altura de me pôr em acção. Respondi que não. Tenho mais que fazer, agora que estou a meditar um dos livros de filosofia do século XX de que mais gosto, After Virtue, de Alasdair MacIntyre. Defende que a nossa linguagem moral está em farrapos, que utilizamos palavras que vêm do passado, mas que, na verdade, não sabemos o que significam, pois o contexto, onde foram cunhadas e faziam sentido, desvaneceu-se. Argumenta que devemos voltar a uma ética das virtudes, tal como foi pensada por Aristóteles e, mais tarde, por S. Tomás de Aquino, mas que isso não é um projecto de elites intelectuais, mas de pequenas comunidades na vida quotidiana. Assim como a pequena comunidade monástica de S. Bento de Núrsia abriu as portas a um novo mundo, essas pequenas comunidades, virtuosas na vida quotidiana, podem ser sementes de um novo mundo. Foi acusado de nostalgia pelo passado, o que poderá ser falso. Contudo, talvez não tivesse percebido como os mecanismos de controlo do pensamento de hoje são infinitamente mais poderosos do que aqueles que existiam nos dias da fundação dos beneditinos. Não será mesmo inverosímil pensar que as pequenas comunidades estarão mais abertas ao vício do que à virtude, mesmo quando elas se propõem à vida virtuosa. A virtude de que ele fala, claro, é a virtude dos gregos, a excelência, tal como nós hoje a entendemos quando dizemos que aquele pianista é um virtuoso. As pequenas comunidades têm menos incentivo para o virtuosismo e são mais permeáveis à viciosidade. Se Março não estivesse no sexto dia e o frio e o vento suspendessem a sua acção deletéria, eu não estaria a escrever coisas destas e, em vez de estar a ler, estaria a fazer outra coisa, que agora não imagino o que seria, mas que nessa circunstância descobriria. Talvez a dormir em frente ao computador ou a gastar gasolina a caminho de um sítio qualquer. O sol dá um ar da sua graça. E mais uma vez me assalta uma dúvida sobre a relação de causalidade existente entre as coisas. Será que o sol foi trazido pelo ensaio do grupo musical da escola aqui ao lado, ou o ensaio é o resultado do sol ter rompido as nuvens para dar uma imagem da sua virtude paternal.
quarta-feira, 4 de março de 2026
Máximas, hipérboles e tensão arterial
Por vezes, tenho uma certa inclinação para máximas. Costumo dizer: a adolescência é uma doença, mas acaba por passar. É evidente que este tipo de sabedoria está assente numa falácia da generalização precipitada. Em muitos casos, a patologia dissolve-se, mas essa dissolução não é universal. Há outros, e talvez não sejam poucos, em que a doença se torna crónica e a adolescência prolonga-se por toda uma vida, mesmo longa. E há quem, já decrépito, ainda pretenda ostentar uma rebeldia juvenil. Tudo isto ocorreu-me por ouvir, lá fora, uns pós-adolescente, pelo aspecto, a gritarem como adolescentes, embora a voz fosse um pouco mais grave. Incomodaram-me o repouso e ofenderam-me o sentimento estético. Enfim, não sou tão sensível quanto isso, tenho uma certa queda para a hipérbole. Para isso e para a tensão arterial elevada, o que me coloca um problema. Não sei se o gosto hiperbólico é a consequência da elevação da tensão arterial ou se, pelo contrário, a tensão sobe devido ao uso de hipérboles. Ou talvez a tensão seja essencialmente hiperbólica e uma coisa e outra sejam apenas a mesma coisa. Não me lembrei de observar, com rigor, a relação entre o uso de hipotensores e a diminuição do uso de hipérboles. Vou preparar um protocolo de observação. Depois de ler o que escrevi até aqui surgiu-me a ideia de que eu posso ser, para infelicidade minha, uma prova da máxima criada por mim, imagino eu, que assevera: a adolescência é uma doença, mas acaba por passar. Não o creio, mas nunca um doente admite que o é.
terça-feira, 3 de março de 2026
Vida passiva
Está uma tarde poeirenta, o céu azul maculado por uma cor indefinida, sem nome. Será das poeiras do deserto, pensei. Não fui ver. Preocupa-me, antes, outra coisa, mas não sei bem qual. Olho para as unhas das mãos e decido que vou cortá-las, mal acabe de escrever. Talvez seja isso que me preocupa. Talvez não, a sua situação não é preocupante, e o assunto não é digno de preocupação. Contudo, há uma coisa que sempre me deixa ligeiramente espantado. A unha do polegar direito cresce mais do que qualquer outra. Espanta-me porque ignoro as razões. Talvez a preocupação venha de outro lado. Tenho de ir caminhar e talvez tenha de respirar as poeiras que atravessaram tantos quilómetros para virem aqui cair sem honra nem glória. Se as respirar, serei contaminado pela sua desonra? São estes problemas que deveriam interessar os homens, mas têm mais que fazer. Eu também teria, caso não tivesse passado à vida passiva. Por isso, irei caminhar, mesmo enfrentado as poeiras e a contaminação. Sem máscara, mas de unhas cortadas.
segunda-feira, 2 de março de 2026
A arte de nomear
Dou comigo a pensar sobre a graça de viver num tempo onde a atribuição de nomes ganha os contornos de arte, de uma das belas artes. Veja-se os processos judiciais. Não há um que não tenha um nome, um nome pomposo. Julgo que será uma imagem de marca com a finalidade de encontrar um nicho de mercado. Também as operações militares, imagino que há mais tempo, têm um nome fruto de uma imaginação criadora. Também elas procuram um nicho de mercado. Consta que a última guerra desencadeada foi denominada por “Fúria Épica”. Se pensarmos um pouco na denominação, percebemos que por detrás desse nome existe uma ignorância adolescente. Ignorância porque as epopeias, quando tratam de guerras, tratam daquelas em que os combatentes estão face a face e não de guerras em que a tecnologia oculta a coragem. Um cobarde pode sair vitorioso e passar por um herói. Nas epopeias, apesar da maldição da guerra, ainda há um módico de honra. Por outro lado, a adolescência da denominação manifesta-se na escolha da palavra Fúria. Um adulto sensato, mesmo que tivesse de fazer a guerra, evitaria dar a entender que a sua opção pelo conflito resulta de um estado emotivo, uma fúria, e não de uma longa deliberação racional. Fúria Épica soa a jogo de computador para adolescente. Talvez por isso, um premiado com o Nobel da Economia chamou à “Fúria Épica” “Operação Insegurança Masculina”. É possível que a arte tenha morrido. Resta a arte de denominar. A criatividade, em refluxo, concentrou-se na tarefa de encontrar imagens de marca para os tenebrosos produtos que tem entre mãos. O triunfo de uma adolescência que não tem fim.
domingo, 1 de março de 2026
O insondável
Hoje, por motivos insondáveis, não fui caminhar de manhã. Imagino que esses motivos são insondáveis porque o mercado não conseguiu responder à procura de sondas. Tivesse uma sonda e… As que existem, se é que existem, devem custar os olhos da cara, pois quem não quer uma para evitar os buracos insondáveis. Deliro, claro. Perante mim repousa um livro com o belíssimo, mas talvez insondável, título Crepúsculo de Outono – poesia completa de Georg Trakl, na tradução, sempre apreciável, de João Barrento. O poema No Leste, página 206, começa assim: Os órgãos violentos da tempestade de Inverno / São como a ira sombria do povo, / A vaga purpúrea da batalha, / De estrelas desfolhadas. Penso, com uma mancha negra no coração, na ira sombria do povo. Medito na vaga purpúrea da batalha, mas o que me prende são as estrelas desfolhadas. Imagino ver na rua belas mulheres a colher as pétalas dessas rosas e orquídeas estelares. Deus, cansado da previsibilidade humana, entretém-se, antes da hora do juízo final, a desfolhar lentamente as estrelas que criou, mas fá-lo tão lentamente que cada estrela durará mais do que pode imaginar a mente humana. Talvez também se entretenha a contemplar essas colhedoras de pétalas. Vê-las-á com o seu olhar infinito. Eu imagino-as, pois os meus olhos, por reais que sejam, não conseguem ver aquilo que é o mais digno de ser visto. A beleza é uma coisa perigosa e Deus, na sua insondável misericórdia, poupa-me a esse perigo.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Carência de psicanalistas
O mês acaba mal, pior do que começou e não começou nada bem. Os seres humanos e as suas paranóias são muito cansativos, mas não existem psicanalistas em número suficiente para tratar todos aqueles que, ocupando o poder, sofrem de patologias narcísicas e de delírios de grandeza. É esse o problema do mundo, a falta de psicanalistas. Os recalcamentos não são tratados, as patologias aguçam-se, explodem e os doentes ocupam o poder sob o aplauso de gente tresloucada que confunde doença mental com grandeza. Não se pense que me estou a referir a alguém em particular. Esta é uma observação universal e vale para todos. Há uns, claro, em que a doença é mais grave, mas mesmo naqueles que aparentam alguma razoabilidade, existe uma inclinação para se julgarem o centro do mundo, pelo menos do pequeno mundo da sua paróquia. É neste momento, quando a carência de psicoterapeutas é pronunciada, que faz falta uma crença inabalável e universal no inferno, acompanhada por uma outra onde se acredita que o narcisismo do governante seria pecado irremissível. O mal da nossa espécie é que deita fora coisas úteis só porque não precisa delas durante uns dias. Fevereiro acaba mal e Março não deve começar melhor.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Tentações e labirintos
Fui apanhado. O relógio, que não é um relógio, mas uma máquina de vigilância que serve também para informar as horas, participou-me que dormi uma sesta de uma hora e três minutos. Admirei não a denúncia do meu acto ilícito, mas do tempo preciso que ele durou. Eu sabia que não apenas tinha caído na tentação de dormir, como a tinha consumado. Contudo, quando se caem em certas tentações nunca estamos de cronómetro na mão para medir a sua duração. Em alguns casos é impossível, noutros seria desagradável e em alguns, contraproducente. Esta experiência da vigilância electrónica, com informação ao pobre que foi deixado cair na tentação, talvez me pudesse dar também notícia do tempo que duram outras tentações. Não se pense que estou a falar das tentações da carne, pois a carne nunca é tentada. O espírito, sim, é o alvo único das tentações. Mas também aqui não me estou a referir àquelas que levam o espírito a ceder às inclinações do corpo, mas às que são meramente espirituais. Quanto tempo dura um devaneio sobre a maldade dos homens ou a perda de sentido da beleza na arte contemporânea? Estas são das mais terríveis tentações, aquelas que podem perder um homem, levando-o para um labirinto sem o fio de Ariadne. Quem não conhecer uma Ariadne, o melhor é resistir às tentações espirituais, antes que se arruíne no dédalo de um pensamento que tem caminhos que só com ajuda astuta levam à saída.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Regras e jogos
Será um dos capítulos finais mais surpreendentes da história da literatura. Trata-se do Capítulo IV de Pasenow ou o Romantismo, primeiro romance da trilogia Os Sonâmbulos, de Hermann Broch. Tem apenas quatro linhas e reza assim: “Não obstante, dezoito meses depois nasceu-lhes o primeiro filho. Aconteceu. As circunstâncias em que isso aconteceu já não é necessário descrevê-las. Forneceram-se ao leitor os elementos suficientes sobre o carácter de cada uma das personagens, para poder imaginá-las por si”. O “não obstante” refere-se aos obstáculos existentes dentro de Joachim e de Elisabeth, agora marido e mulher, para enfrentarem os factos da vida, aqueles que são necessário para que nasça um filho, pelo menos eram necessários naquela época, os finais do século XIX. Ora, este final remete para o leitor o trabalho narrativo de completar a história, imaginando, a partir do carácter de cada personagem, traçado pelo autor, a vida sexual do casal. Há um claro aviso ao leitor: não se ponha a imaginar coisas que lhe passam pela cabeça ou pelo desejo. A imaginação está drasticamente limitada pelos elementos fornecidos pelo autor. Este concede a liberdade ao leitor, mas de imediato a restringe. É um jogo e todos os jogos têm as suas regras, talvez a única coisa comum a todos os jogos, embora ter regras não seja condição suficiente para algo ser um jogo, pois há outras coisas que também têm regras. O jogo que Broch propõe ao leitor é descobrir as regras que permitiram, ao fim de 18 meses, Elisabeth dar à luz um filho e Joachim ser pai. Não pense o leitor que é fácil decifrar as regras deste jogo, pois, como em todos os jogos, as regras são arbitrárias e nunca deixam de surpreender aquele que as não conhece.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Falar sozinho
Hoje fui ver o mar. Consultei as aplicações meteorológicas e elas informaram-me de que, onde pretendia ir, haveria chuva. Pensei que os profetas se podem enganar. E enganaram-se. Almocei diante das ondas, bravias e indispostas, mas com poder hipnótico. Tive de me concentrar no que se passava à mesa, para os olhos não serem arrastados por aquele ir e vir furioso. Depois de almoço, mudei de praia e aí havia apenas uma ondulação benigna e escolas de surf na sua intérmina tarefa de ensinar os candidatos a caminhar sobre as águas. Bem tentam, alguns dão uns passos, mas logo caem. Bem, a queda é o destino de todos, pois haverá sempre um alçapão à nossa espera. Pus de lado as acrobacias dos andarilhos das ondas, e fiquei a olhar o mar apaziguado e pacifiquei-me, sem saber o que pensar perante os mistérios do mundo. O melhor será nada pensar. Foi o que fiz, embora é pouco provável que não tenha pensado em alguma coisa, desde aquela hora até a esta. A nossa mente tem horror ao vazio e, mesmo que o não queiramos, está sempre a borbulhar com ideias. Por vezes, são tão fortes que extravasam e saem pela boca, articuladas em palavras. Estás a falar sozinho, dizem-me. Pois estou, respondo, preciso de fazer higiene ao cérebro e aproveito para deitar fora, expelindo pela boca, as ideias que me inundam. Nem sei de onde vêm, concluo. Não convenci ninguém, mas também não é essa a minha missão.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
O maior Don Juan
Não há Don Juan como o Marquês de Bradomín, pensei a propósito de alguém de que se dizia ser um autêntico Don Juan. Personagem central das quatro sonatas (Outono, Inverno, Primavera e Verão) que compõem o ciclo romanesco criado pelo galego Ramón del Valle-Inclán, o Marquês de Bradomín é um Don Juan “feio, católico e sentimental”, o que é já uma distorção quase grotesca da figura tradicional do Don Juan. O galante aristocrata, no fundo, é um Don Juan falhado, uma desconstrução, como agora não cessa de se dizer, da figura do conquistador engendrada, no século XVII, por Tirso de Molina e a que José Zorrilla deu uma torcedela, no XIX. Valle-Inclán não se conteve e distorceu a figura, dando-lhe a tal configuração quase grotesca, um prenúncio do esperpento. Mas isso não vem ao caso. O caso é que não há maior Don Juan do que o feio, católico e sentimental Marquês.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Intocado
De uma das estantes, retirei o romance A Atenção, do italiano Alberto Moravia. A obra foi publicada em Itália em 1965 e o exemplar que possuo é uma segunda edição, o que deverá ser lido como segunda impressão, da tradução portuguesa, impressa em 1969. Comprei-o num alfarrabista online há tempos, nem sei bem quando. Vinha com as folhas fechadas. O facto de ter mudado de dono não lhe alterou o estado de virgindade, pois as folhas continuam fechadas como estavam, mas mais velhas. Sinto o dever de abrir o livro, mas a sua condição de intocado tolhe-me os movimentos. Se lhe abrir as folhas, nunca mais voltará a este seu estado intocado e, tanto quanto consigo compreender o mundo dos objectos, não ganhará nada com a minha acção. Eu, sim, ganharia a possibilidade de o ler. Pergunto-me qual o dever que será moralmente aceitável seguir. Manter o objecto no seu estado de pureza, como uma virgem consagrada? Cultivar o meu espírito com a leitura? À partida, a decisão parece fácil: o dever de me cultivar tem prioridade sobre a integridade do objecto, ainda por cima de um que foi produzido com o propósito de ser aberto. Isto, porém, é apenas um lado da equação. Será que o objecto sofre ao sentir a dilaceração das folhas que estavam unidas? Não se queixará, claro, pois terá uma natureza heróica, mas as feridas nunca cicatrizarão. Talvez a cultura do meu espírito seja menos importante do que o respeito pela coisa, pois nunca se sabe o que é uma coisa. Se eu for tratado como uma coisa e for dilacerado, não gostarei. Imagino que ao livro lhe aconteça o mesmo. Levanto-me, pego nele e, com cuidado, coloco-o onde estava. Ele não me agradeceu, o que me perturbou, mas já estou recomposto.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Exactidão
Os dias estão mais longos. Nota-se bem. Eu ouvi, mas pensei noutra coisa. Pensei na perfeição de Fevereiro quando tem apenas 28 dias. São quatro semanas exactas e não quatro semanas vírgula qualquer coisa, que é o que acontece a todos os outros meses, e ao próprio mês de Fevereiro nos anos bissextos, quando ele rompe com a exactidão e, inchado de orgulho, pretende ter mais do que as exactas quatro semanas. Então, cai na armadilha das vírgulas, não conseguindo encontrar a paz nas casas que se seguem à vírgula. Sou um narrador sensível à exactidão, embora nem tudo – talvez nada – do que escrevo seja exacto. Se dormisse melhor, penso, seria mais exacto e encontraria motivos menos espúrios para estes textos, mas há muito que sofro de insónias, são noites mal dormidas, umas atrás das outras. O cérebro transtorna-se e cada vez que se propõe conceber alguma coisa, o que lhe nasce é um aborto. Espontâneo, note-se. Seja como for, espontâneo ou voluntário, um aborto não deixa de ser o que é. Aliás, caso quisesse abortar estes textos, não o conseguiria com tanta eficácia como aquela que existe sem que a minha vontade se sente numa cadeira confortável, pondere, delibere e execute um texto abortado. Nada disto tem que ver com o crescimento dos dias, mas também não me interessou o assunto. Fica para uma próxima oportunidade.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Acção de graças
Pela primeira vez em muitos meses, fui caminhar à tarde. Saí de casa por volta das cinco. E descobri que, de um momento para o outro, o Inverno emigrou e foi substituído pela Primavera. Via-se no rosto das pessoas com que me cruzava, nas magnólias floridas, no cântico dos pássaros, no modo como as paredes reverberam sob o impacto dos raios solares. Caminhei devagar para que esta Primavera antecipada se me entranhasse nos olhos e pudesse trazê-la para aqui, para a narrar como acção de graças. Acção de graças foi acto que perdeu sentido, talvez as pessoas pensem que aquilo que lhes sucede de agradável e bom seja mérito seu, mesmo um dia de sol, mesmo a bonança dos elementos. Ora, se perdessem algum tempo a observar-se e a observar o que acontece, talvez descobrissem que o mérito com que se revestem nasce mais do acaso, da fortuna, do que lhe pertence. Mas as pessoas inteligentes e altamente empenhadas não têm mérito? Talvez, mas há uma coisa que lhes deve moderar o entusiasmo: não escolheram ser inteligentes e, provavelmente, também não escolheram ter um carácter que as torna empenhadas. Saiu-lhes na lotaria genética. Deveriam estar gratos e entregar-se a uma contínua acção de graças, não vá a inteligência soçobrar num escolho ou o empenho ser atingido pela acédia, esse terrível pecado que perseguia os monges do deserto.