terça-feira, 24 de março de 2026

Moralidades

Tinha oitenta e sete anos quando, em 2016, publicou Ethics in the Conflicts of Modernity: An Essay on Desire, Practical Reasoning, and Narrative. Trata-se do filósofo escocês Alasdair MacIntyre. Viveu até aos noventa e seis anos. É o que se pode chamar uma vida grande e plenamente realizada. O seu percurso intelectual é interessante. Começou como marxista e acabou como aristotélico-tomista. Converteu-se ao catolicismo. Apesar das metamorfoses, há um traço que unifica este percurso. A sua oposição ao liberalismo e à visão do homem como ser absolutamente autónomo. No final do século passado, em 1999, publicou uma obra cujo título resume a sua posição: Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues. Sim, somos seres racionais, mas também somos animais e, traço fundamental, somos dependentes. E o reconhecimento dessa dependência coloca-nos no lugar que é o nosso. Num tempo em que a arrogância do homem parece não ter limites, desde os políticos que se imaginam grandes imperadores até aos tecno-milionários que aspiram tornar-se imortais, a voz da razão fala não através de projectos de autonomia, mas do reconhecimento da nossa dependência e da nossa interdependência. Os dias que vivemos estão enlouquecidos, e a génese dessa loucura reside precisamente nessa incapacidade de cada um se reconhecer naquilo que é: um animal racional dependente. Isto é, o exercício de uma virtude que caiu em desuso e tem péssima imprensa, a humildade. Estou, hoje, excessivamente dado à moralidade. Não sei se é do sol ou se de ter dormido mal. Seja qual for o motivo, estou cansado de super-homens e de idiotas que apostam em tornar a vida dos seus semelhantes num inferno, como se lhes tivessem outorgado o direito de comer os frutos da árvore da ciência e da árvore da vida.

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