quinta-feira, 19 de março de 2026

A explicação da guerra

Anatole France, Prémio Nobel em 1921, escreveu um romance com título humorístico, A Ilha dos Pinguins, no qual S. Maël baptizou, em vez de homens, pinguins. Não é, porém, isso que me interessa, mas uma frase que ocorre no capítulo III, “Viagem do doutor Obnubile”, do Livro IV, cujo título omito. A frase ocorre no contexto em que se fala de guerra. O doutor Obnubile questionou a certa momento: Vocês, um povo industrial, meteram-se em todas essas guerra? O interlocutor, depois de confirmar que se tinham metido em todas aquelas guerra, concluiu: Na Terceira-Zelândia matámos dois terços dos habitantes, a fim de obrigarmos os restantes a comprar-nos guarda-chuvas e suspensórios. Esta é uma prática muito humana. Se os mercados se fecham, em vez de procurar uma chave para abrir portas, o mais sensato é abri-los a tiro de canhão, embora, nos dias que correm, usam-se coisas como mísseis e drones. Ora, se examinarmos com atenção, não há guerra no mundo que não tenha por fim obrigar o inimigo, qua até aí era amigo, a comprar guarda-chuvas e suspensórios. Acontece, e não poucas vezes, um povo, por viver num clima em qua nunca chove e numa cultura em que não se usa vestuário que exija suspensórios, ser invadido para que aprenda a usar guarda-chuvas e suspensórios. Dir-me-ão que esta visão da guerra é simplista, que nega as verdadeiras causas dos conflitos. Ora, adoptando uma posição aristotélica, podemos perguntar: Qual é a causa final de todas as guerras? Depois de se analisarem muitas causas candidatas a serem a causa final, as quais se eliminam por si mesmas, só sobre uma. O telos de todas as guerras é a venda de guarda-chuvas e suspensórios. Esta é a minha contribuição para explicar o momento em que vivemos. Os países produtores de guarda-chuvas e de suspensórios precisam de escoar o produto para aqueles que não necessitam deles. 

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