terça-feira, 17 de março de 2026

Preocupações

Descobri, agora, que hoje ainda não tinha pousado os olhos sobre qualquer jornal. Fiquei perplexo e, pensando no assunto, também preocupado. Hegel, o filósofo alemão pai do idealismo absoluto, terá escrito, talvez na juventude, que A leitura do jornal é a oração matinal realista do homem moderno. A minha preocupação tem uma dupla origem. Será que perdi a fé, pois já não me interessa uma oração matinal realista? Será que já não sou um homem moderno? São motivos fundos para desassossego. De facto, é preciso mesmo muita fé para crer na realidade. Se nos falta a fé, perdemos a âncora no real. E como é possível deixar de ser moderno, se vivemos na modernidade mais moderna que pode existir? Não se trata de hipermodernidade, nem de modernidade tardia, nem de modernidade líquida, tão pouco de pós-modernidade. É mesmo uma modernidade moderna a outrance, que se me perdoe o galicismo, uma modernidade que se perdeu da modernidade tradicional e se pôs a modernizar o que era moderno. Ora, como posso eu exilar-me deste mundo, pois não tenho outro disponível. Claro, podia emigrar para a Idade Média, mas as fronteiras com ela foram fechadas, não fossem as pessoas quererem fugir para lá. Talvez seja esse o meu caso. Custa-me a realidade, falta-me ânimo para modernizar o modernizado. O resultado é não olhar para a imprensa, pois, há muito, que evito telejornais e outras novelas do género. Não sei se, lendo agora o jornal, já caída a noite, tal leitura contará como Oração de Vésperas. Sobre isso, porém, nada disse Hegel.

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