quarta-feira, 18 de março de 2026

O desprazer do prazer

Agora, estou a Gurosan. Coisas que acontecem a quem se deixa cair em tentação. A culpa não é da hübris, mas do desespero que tolda a razão, suspende o juízo e impede a avaliação do risco num negócio de prazer. Uma consulta marcada para as onze horas. A hora de  marcação é um mero pró forma. Já passava bem do meio-dia quando entro para o consultório, para uma conversa amigável, mostra de exames, análise das possibilidades. Enfim, passar o tempo, embora esse tempo não seja barato. Ao sair é-me comunicado que num certo restaurante havia, hoje, logo hoje, Cachupa. Nem pensei. Disse: vamos, é isso mesmo que me apetece, já nem me lembro quando foi a última vez que a comi. É o que dá o desespero. Sem quase duas horas numa clínica, a minha razão estaria em modo de sensatez, envolver-se-ia num processo de deliberação e tomava a decisão de dizer não. É verdade que a Cachupa foi muito mais agradável do que o tempo de espera no consultório, mas empurrou-me para São Gurosan, um santo protector dos inclinados a más digestões e outros ofícios malévolos do corpo. Contudo, pensando bem, existe uma regra que merece ser dada a conhecer ao mundo. O malfadado tempo de espera foi compensado com o benévolo resultado da consulta. O benévolo prazer da Cachupa acabou em Gurosan. Em síntese: o desprazer leva ao prazer, e o prazer conduz ao desprazer. Não percebo por que razão uma coisa e outra têm de estar ligadas, mas estão. A consequência de tudo isto é que vou dispensar o jantar.

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