quarta-feira, 11 de março de 2026

Máquina taxionómica

Ao ler alguns poemas de Rui Lage, do livro Física Espiritual – antologia pessoal, pensei que existem dois tipos de poetas: os sensíveis e os inteligíveis. Rui Lage é um poeta do sensível. Veja-se a primeira estrofe do poema “Eira”: Ateada a palha com isqueiro furtado, / víamos a chama cevar / de puro tédio ou furor inocente, / até nos simularmos sapadores / e apagarmos o incêndio com tábuas / e terra lançada às labaredas. Tudo no poema parte da experiência sensível, de um ver o mundo dado pelos sentidos. Do outro lado da contenda, podemos de imediato mobilizar, como exemplo, a primeira estrofe de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa: Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. O sensível e o inteligível, usados como etiquetas classificadoras, têm uma origem nobre: Platão e a dualidade ontológica entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Contudo, alguém poder-me-ia acusar de cair numa falácia, a do falso dilema: divides a poesia em duas classes, o poeta ou é metafísico ou é físico, mas isso é redutor. Há pelo menos um outro género de poetas: os que fundam a poesia não na sensibilidade ou no intelecto, mas na imaginação. Perante o acusador, só posso reconhecer a sua razão. O poema de abertura de A Colher na Boca, de Herberto Helder, é um belo exemplo disso, como mostra o início da primeira estrofe: Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo. / Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer, / sorrindo com ironia e doçura no fundo / de um alto segredo que os restitui à lama. Poderia dizer as coisas de outro modo. Há poetas do campo, como Rui Lage, poetas da cidade, como Fernando Pessoa, e poetas das ilhas, como Herberto Helder. O campo é um exercício sensorial, a cidade exige um mapa conceptual e as ilhas são devaneios perdidos no mar. Foi o que me ocorreu hoje. Amanhã, pensarei de maneira diferente e proporei uma outra classificação. Sou uma máquina taxionómica.

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