Há pouco, vinha a escutar a Antena 2. Falavam de poesia, e a conversa derivou para o encómio de escrever em papel, como se esse fosse o único material em que se pudesse escrever. A devoção é de tal ordem que uma pessoa é levada a pensar que o papel é uma propriedade da própria escrita e não um mero suporte. Tornei-me ateu em relação ao papel. Não creio nele, nem acredito que haja uma relação necessária entre escrever e papel. Há muito que não escrevo em papel. A vinda dos computadores com os seus processadores de texto foi para mim uma libertação de um jugo ancestral. O papel reflecte as idiossincrasias pessoais, como se ali fosse o império da irracionalidade. O processador de texto, porém, permite dar uma ordem clara e distinta a tudo o que se escreve, e eu sou um cultor da clareza e da distinção, mesmo que não sinta satisfação na leitura de Descartes. Tenho numa estante, mesmo ao lado da secretária, uma série de cadernos. Estão todos imaculados, não foram abertos ao despotismo da caneta, nem a tinta, como um líquido seminal, penetrou naquela virgindade. Estão ali abandonados, são a prova de um tempo que passou. Talvez eu seja, sem o saber, um moderno. Não escrevo em papel, não leio em papel, mas tenho alguns cadernos e milhares de livros em papel. Como gostaria que, por um passe de magia, todos aqueles livros se transformassem em ficheiros digitais, libertando as estantes, para que elas pudesse ir para outro lado. Não é que eu não goste de papel. Gosto, mas talvez goste mais das árvores. Estas não têm culpa dos desvarios dos homens, do desejo de deixar uma mensagem para o mundo, mensagem que terá como suporte o cadáver desses seres vivos extraordinários que são as árvores. Consomem-se florestas só para que a vaidade dos homens se manifeste. Quem quiser escrever que escreva num processador de texto, deixe o papel em paz e não lance o desespero nas florestas. Já basta os fogos.
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