Nem dei pela chegada Primavera. Aterrou hoje pelas 14:45, hora de Lisboa. Veio disfarçada de Inverno. Devido ao equinócio, dia e noite terão, por instantes, a mesma duração, mas logo os dias começarão a crescer e as noites a diminuir. Depois, lá mais para a frente, começará o processo inverso. Contudo, se este mundo fosse perfeito, não haveria necessidade de compensações. Noites e dias seriam sempre iguais, com a mesma duração, para evitar que um deles se torne arrogante, humilhe o outro e seja castigado por algum deus indisposto. Como se sabe, os deuses indispõem-se com muita frequência. Não apenas com os mortais, mas também entre eles. É claro que as indisposições dos deuses com os mortais são muito mais perigosas. Veja-se o que aconteceu a Ájax. Atena fez dele, o mais corajoso e competente guerreiro, depois de Aquiles, gato-sapato, tudo porque teve a ousadia de dispensar os seus serviços. A tragédia de Sófocles, que trata da história desse herói enlouquecido pela deusa, é uma bela advertência para todos nós. Se um deus te oferecer ajuda, aceita-a. Se não a oferecer, o melhor é pedir-lha. Mesmo que não a dê, ficará sensibilizado pelo reconhecimento e pelo facto de saberes o teu lugar no mundo. Compensar-te-á mais tarde. Ora, isto tem alguma coisa a ver com a chegada da Primavera? Há uma coisa que todos devíamos saber: tudo tem a ver com tudo. Neste caso, podemos crer que a Primavera é uma deusa. Se a cultuarmos como deve ser, oferecer-nos-á um tempo agradável. Porém, se dispensarmos a piedade, ela será uma Fúria, ora oferecendo-nos um frio invernal, ora um calor que só o pior dos Verões tem dentro de si. O melhor é visitá-la no seu altar, depositar flores a seus pés e pedir-lhe que nos dê um boa Primavera, isto é, que se nos ofereça com o mais benévolo dos seus múltiplos rostos. Em caso de urgente necessidade, aconselha-se uma procissão.
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