Há coisas no mundo que não compreendemos. Estamos mesmo convencidos de que nunca saberemos o seu sentido, pois compreender uma coisa é saber-lhe o sentido. Uma delas, que, sem me atormentar, não deixava de criar em mim perplexidade, foi resolvida hoje, ao ler, na transição da primeira para segunda página do romance A Prova, do argentino César Aira, o seguinte: Ninguém lhe tinha recomendado que andasse a pé; fazia-o por um instinto terapêutico. Quando li “instinto terapêutico” tive uma iluminação e soletrei, não sou de gritar, Eureka! É a chave para um enigma que nasceu de encontrar não poucas pessoas que, não tendo formação na área da saúde, estão sempre prontas a oferecer diagnósticos, receitar terapias e desenhar prognósticos. Este comportamento que sempre me pareceu irracional encontrou agora a chave que lhe confere um sentido. Nasceram com instinto terapêutico. E o instinto é tão forte que elas não conseguem conter o seu desejo de remediar os males de quem delas se aproxima. Isto, porém, é apenas um ponto de vista. O problema pode ser meu e não desses facultativos. Imaginemos que todos vêm ao mundo com instinto terapêutico. Ora, falta-me em absoluto esse miraculoso poder. Sofro de uma deficiência e, em vez de aproveitar as consultas gratuitas, convenço-me de que sou normal; nada me falta. São esses os saudáveis detentores de todos os instintos que sofrem de uma patologia comportamental, convenço-me. Não perderiam nada, digo a mim mesmo, em fazer terapia de grupo para se curarem e deixarem de receitar colírios a torto e a direito.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.