terça-feira, 9 de abril de 2019

Desencontros

Uma mulher caminha contra o vento, os cabelos parecem querer voar em sentido contrário ao do corpo, enquanto a roupa, tornada indiscreta pela impiedade de Éolo, lhe desenha, sem propósito, os contornos, já tocados pelo passar dos anos. Um casal atravessa a passadeira, arrasta atrás de si duas malas como se fosse apanhar o avião, mas aqui não há aeroporto, lembrei-me de imediato. O desejo de partir é tão grande que as pessoas não conseguem impedir-se de ostentar pelas ruas os sinais de quem se liberta. A melancolia da província é tomada de assalto pela tristeza do dia e as duas dançam dentro dos meus olhos. Eu, enquanto observo tudo isto, luto por me lembrar de uma palavra que viria a propósito do que queria dizer, mas ela foge-me, corre, dança e, depois, ao longe, acena-me e torna a esconder-se. Hei-de apanhá-la quando já não precisar dela. A vida é feita de desencontros, consolei-me. Os pombos voam em círculos, os carros passam sem pressa, e eu vivo o êxtase de me ver roubado das palavras que fui comprando, o mais certo em saldo, nesses grandes armazéns onde se compra tudo aquilo que nos há-de escapar.

Sem comentários:

Enviar um comentário