Esta Terça-Feira
de Carnaval parece uma Quarta-Feira de Cinzas. Quando fui à rua, não vi um
vestígio de Carnaval, nem de Entrudo, nem sequer de folia, por pequena que
fosse. Havia pessoas nas esplanadas, mas falavam em sussurro, discretas,
temerosas da exuberância que deveria habitar o coração do dia. Talvez o dia,
pensei, não tenha coração. Depois, o céu está cinzento, sem uma abertura que
permita que os olhos se alegrem no azul ou que uns raios de sol, amigáveis e
voluntários, cheguem até nós, para aquecer o coração, se lhes faltar força para
animar o corpo. Espreito a avenida, uma tristeza sombria. Um ou outro
transeunte esquecido de si, carros, poucos, passam devagar, como se esperassem
a revelação do destino a que se deveriam dirigir, mas que não se manifesta,
deixando-os perdidos, com os seus condutores a soletrar orações para que o
Carnaval acabe depressa, e a alegria quotidiana volte, mesmo numa Quarta-Feira
de Cinzas, mesmo numa Quaresma, mesmo na indiferença que cobre a vida e o mundo. Um dos baloiços do parque infantil range e
neste ranger está toda a alegria do Carnaval.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
O ranger do Carnaval
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