sábado, 11 de julho de 2026

Desperdiçar tempo

Depois de ver um conjunto de vídeos numa rede social, pensei que é difícil ser um adepto de futebol racional e esclarecido. O que mostram esses malfadados vídeos? Situações em o árbitro deveria assinalar castigos da marca da grande penalidade, para falar como um entendido, mas que, apesar da ajuda da tecnologia e de árbitros a que chamam VAR, não o faz. Uma hipótese que me ocorreu é que esses vídeos sejam fabricados pela Inteligência Artificial, mas, depois de pensar melhor, chego à conclusão de que não, pois também eu os vi, aquando da transmissão em directo desses jogos. A não ser que também os jogos sejam apenas criação da IA, sem que saibamos disso. Ora, se pusermos de lado a hipótese de fabricação artificial dessas imagens, o que descobrimos é uma derrota sem apelo das Luzes e, com essa derrota, a da razão e da verdade. Aquilo que deveria servir para iluminar e trazer a verdade é fonte de obscuridade. Talvez o futebol não seja mais do que um dispositivo construído para nos conduzir a uma Idade das Trevas, aniquilando a verdade do que se vê. Eu que estava tão empenhado em seguir este Mundial até à sua conclusão começo a duvidar que o faça. Sempre sou, quando sou, um narrador iluminista, educado na dura disciplina kantiana, aquela que se expressa em Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. Em momento algum a mentira é um direito. Logo, avaliações erradas de episódios de um jogo de futebol falseiam os resultados e permitem que a mentira determine como lei o resultado de uma competição. O que transforma o jogo, com as suas paixões, numa fábrica de superstições. Dir-se-á que é apenas um jogo, no qual uns quanto rapazolas correm atrás de uma bola e lhe dão pontapés quando a encontram. É verdade, mas mesmo o espancamento de uma bola deveria obedecer ao princípio da verdade. Estou eu a protestar contra a FIFA, o VAR e os árbitros? Não. Apenas mostro ao leitor distraído uma das modalidades que uso para desperdiçar o meu tempo narrativo.

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