O crepúsculo estende-se sobre a cidade. Cinzento, sombrio, como se nele carregasse o peso de um luto ancestral. A iluminação pública já invadiu o território, pronta para acolher a noite. Um cão ladra na praceta aqui em baixo, enquanto o bosque da escola vizinha se transforma numa massa negra. Parece que chegou a hora do silêncio. Uma ilusão. Carros e pessoas rompem os muros da escuridão e correm pelas ruas como se tivessem um destino. Não têm. Aliás, são poucos os que o têm. Os outros, quando muito, terão objectivos, desejos, razões. E haverá aqueles a que nada os move. Não é que não se movimentem. Movimentam, mas não o fazem nem por desejo nem por qualquer razão. São levados pela mecânica do corpo, pelos impulsos da biologia. São tão inocentes quanto a Lua, o Sol, um animal selvagem. Podemos organizar uma taxionomia da humanidade. Os que se movem naturalmente, os que se movem por desejos e razões e os que se movem pelo destino. Apesar da diferença, todos partilham uma característica. Nenhum escolheu o grupo a que pertence. Aconteceu-lhe, como acontece o crepúsculo e, depois dele, a noite.
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