quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Embaciamento

O vidro de uma das janelas do escritório estava sujo, manchado pelos pingos de chuva que, pela aparência, transportariam com eles uma poeira que ficou coloda em forma de manchas redondas. Há pouco foi limpo, mas não deve ter resultado. Agora, há uma mancha única, que turva o vidro e torna a visão do exterior mais  baça, como se as coisas do mundo estivessem a perder a energia, tornando-se mais anémicas. O verde do bosque da escola aqui ao lado é menos verde e a brancura do hospital, recém pintado, amarela-se perante a minha curiosidade. Falta perfeição ao mundo, concluí.  Ainda pensei que fosse dos meus olhos, mas não. O que vejo no monitor, ao escrever, é claro e distinto, mesmo se os óculos estão um pouco sujos. Sou um narrador pouco fiável. Estou perante um autêntico trilema. Por que razão o que vejo pela janela está  toldado? A causa está no vidro mal limpo? Está nos meus olhos? Está nas lentes dos meus óculos? Todas estas hipóteses são verosímeis, mas talvez sejam falsas. A verdade pode ser outra: o mundo embaciou-se, está a tornar-se uma mancha, um borrão de tinta cinzento-amarelada, uma nódoa no horizonte. Talvez seja apenas a Quarta-Feira de Cinzas.

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