A certa altura da entrevista concedida ao Público, László Krasznahorkai diz: Não me movo por qualquer tipo de consciência ou intenção deliberada quando me sento para escrever. Trago a citação porque é essa a experiência deste narrador, mesmo quando os seus textos, noutros lugares que não este, deveriam ter a seriedade de um plano, o apoio de um questionário e a tranquilidade de uma tese. Sento-me e começo a escrever o que o acaso traz. Isto é uma imensa vantagem, pois o acaso está em qualquer lugar ou em qualquer tempo. Uma coisa observada no mundo, um pensamento ou imagem que atravessa a consciência, a vontade de contar uma mentira, o desejo acendido pelo corpo de uma mulher – não devia escrever isto aqui, sempre há que preservar a compostura e a imagem de um velho monge que medita as bem-aventuranças. Por vezes, os assuntos cruzam-se sem nexo aparente, mas quando se escreve borbulham preocupações, cruzam-se, negam-se. Só isso. Bem, há mais qualquer coisa. Há muitos anos, há décadas, descobri uma trivialidade: tudo tem que ver com tudo. Um assunto pode conectar-se com um outro que, dir-se-á, nada tem que ver com ele. Isso, porém, é uma ilusão. Os assuntos residem todos na nossa consciência, mesmo aqueles mais transcendentes, e nela se tocam, se amparam e crescem até que sejam projectados para o mundo pela escrita, pela fala, por sinais de fumo, por notas musicais ou mesmo pelo encolher dos ombros. Saem da consciência sem que a consciência tenha deliberado sobre a sua saída. Não há coisa mais inconsciente em mim do que estuporada da minha consciência.
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