Do canal Mezzo chega-me um concerto de Joaquín Achúcarro, um pianista espanhol nascido em Bilbau. Toca no Guggenheim da sua terra natal. Enquanto lido com o calor, deixo deslizar a música de Brahms no escritório. Não se pense, porém, que passei o dia envolvido em coisas elevadas. Assisti, na televisão, a grande parte da penúltima etapa da Vuelta a España. Diziam os comentadores da Eurosport que era a etapa rainha, uma expressão corrente no comentário de ciclismo. O que é uma etapa rainha? É uma etapa de especial dificuldade, devido às montanhas que os ciclistas têm de escalar, acabando, muitas vezes, no cimo da mais difícil. Não há uma etapa rei. O difícil é feminino, o que me parece justo. Não sou um seguidor do ciclismo, mas gosto de espreitar as grandes Voltas — Itália, França e Espanha — e, por vezes, deixo-me ficar a ver. A de hoje era de um esforço insano, a combinação de muita montanha com o calor abrasador da Andaluzia. Talvez este esforço não seja menos elevado que a música de Brahms, de Liszt ou de Chopin. Apenas pertence a outro campo. Eu vejo aqueles ciclistas e admiro a coragem, mesmo daqueles que são os últimos. Eu, só de pensar no calor, fico indisposto e nunca me imaginei em cima de uma bicicleta, a trepar a um lugar ermo, só para superar os outros e, na verdade, a mim mesmo. E aqui haverá qualquer coisa de espiritual, em comum com a arte. A ascese da auto-superação. Ganhou um espanhol a etapa, outro espanhol irá ganhar a Vuelta. Oiço um pianista espanhol a tocar num museu de uma belíssima cidade espanhola, daquelas que mais gosto. Y Viva España. Não, não quero ser espanhol.
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