Há pouco, estava a contemplar a tarde e lembrei-me, por associação de ideias, do quadro de Giorgio de Chirico, O Enigma da chegada e da tarde (L’enigma dell’arrivo e del pomeriggio, 1912). Num espaço aberto, duas figuras humanas parecem suspensas no tempo. Por detrás de um muro, avista-se a vela de um navio. Penso em qual das duas, a chegada ou a tarde, é mais enigmática. Tomo a decisão, depois de ponderar, de que as tardes são muito mais enigmáticas do que as chegadas. Chegadas podem ser muito mais raras do que as tardes, mas essa raridade não é condição suficiente para as tornar mais enigmáticas. Aquilo que acontece a todas as 24 horas, a tarde, é, pela sua repetição, muito mais secreta. As tardes, como as manhãs e as noites, escondem-se na sua iteração. Quanto mais habituados estamos a elas, mais esfíngicas se tornam. Talvez, na vida de cada um de nós, uma tarde, ou uma manhã ou uma noite, tenha sido notada como a primeira tarde, como algo de notável, que nos fascinou e assombrou. Estivemos diante do seu enigma, sentimo-lo, mas éramos demasiado infantis para o compreender e decifrar. Depois, tardes, manhãs e noites tornaram-se presenças habituais, de tal modo que não as vemos. Por isso, o seu enigma cresce, cresce, até se tornar desmesurado e incomensurável. Olhamo-las, mas não as vemos, somos como as duas figuras do quadro de Chirico. Estamos suspensos no tempo.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.