segunda-feira, 9 de março de 2026

Retorno

Hoje, comprei as primeiras amêndoas. Numa confeitaria do Porto, produto da casa. Também têm bolo-rei, mas contive-me. Foi uma despedida da cidade com honra, depois de uma estadia óptima, tudo motivado por um concerto. No regresso, decido almoçar junto a Leiria. Oiço, durante a viagem: Nada de carne. Registo e continuo concentrado na condução, aliás plenamente de acordo com a declaração. Chegado ao restaurante, consultada a carta, sugiro pratos de peixe e pergunto: e então? Que tal o cozido à portuguesa, oiço. Naquele momento, convenci-me de que o cozido à portuguesa seria um prato de peixe, talvez mesmo vegetariano, e respondi: é isso mesmo que me está a apetecer. Não me arrependi. Saí com vontade de regressar. O pior de tudo foi a paisagem. A devastação da floresta. Árvores enormes arrancadas pelas raízes, eucaliptos cortados a meio do tronco, paisagens de uma distopia que prediz o fim do mundo. Depois dos temporais, ainda não tinha passado por aqueles lados. Uma coisa é saber pelas notícias, outra é ver. Isto são lugares-comuns, mas os lugares-comuns são formas de sentir em comum, de partilhar o sentido da dor, também da alegria. Por vezes, são a salvação da linguagem, para que ela possa ainda expressar o que não se pode expressar. E o que aconteceu resiste bastante aos avanços da milícia do vocabulário. Há que aproveitar a banalidade para dizer o que não tem nome.

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