Deixei cair a noite antes de vir aqui escrever. Para esclarecer o que disse, afirmo que trazia noite nos braços. A princípio era leve, mas quanto mais caminhava mais pesada se tornava a noite. A certa altura, impotente e de braços esmagados pelo peso, deixei-a cair. E ao cair, ela tornou-se um pássaro, depois perdeu o peso e ficou a flutuar sobre a terra. Não me peçam para explicar estas metamorfoses ontológicas da noite. Deixei-a cair, isso basta. Sentado no escritório, olho para a rua e vejo-a. Ainda bem que não casei com ela. Seria uma humilhação infinita, tê-la nos braços a caminho da câmara nupcial e deixá-la cair. Certamente, ela pediria o divórcio ainda antes da consumação do casamento. Não se tratando de um caso matrimonial, o problema é menor. Ela poderá invocar que é um caso de incompetência no serviço de transportes e pedir uma indemnização à empresa transportadora de dias e de noites. Serei alvo de um processo disciplinar e, antecipando o desfecho, de um despedimento por justa causa. Não se trata assim uma cliente tão assídua, que paga a tempo e horas. Se me escapar do ordálio e continuar a transportar a noite, peço-a em casamento. Imagino que, sentindo-se noiva, fará dieta, irá ao ginásio, tornar-se-á mais leve e eu depô-la-ei no chão do mundo com o cuidado com que um homem depõe no leito a mulher amada. Olho pela janela, ela acena-me, sorrio, ela também. Ainda é cedo para anunciar o noivado, sussurra-me.
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