Tenho andado distraído e só agora reparei que Março vai no sexto dia. Aliás, um dia pouco propício, inclinado para a ventania e dobrado a um frio que se transfigura em memória de infância. Só naqueles dias havia frios destes, só neles o vento soprava de uma maneira que abria as ruas à incontinência da serra. O relógio informou-me que é altura de me pôr em acção. Respondi que não. Tenho mais que fazer, agora que estou a meditar um dos livros de filosofia do século XX de que mais gosto, After Virtue, de Alasdair MacIntyre. Defende que a nossa linguagem moral está em farrapos, que utilizamos palavras que vêm do passado, mas que, na verdade, não sabemos o que significam, pois o contexto, onde foram cunhadas e faziam sentido, desvaneceu-se. Argumenta que devemos voltar a uma ética das virtudes, tal como foi pensada por Aristóteles e, mais tarde, por S. Tomás de Aquino, mas que isso não é um projecto de elites intelectuais, mas de pequenas comunidades na vida quotidiana. Assim como a pequena comunidade monástica de S. Bento de Núrsia abriu as portas a um novo mundo, essas pequenas comunidades, virtuosas na vida quotidiana, podem ser sementes de um novo mundo. Foi acusado de nostalgia pelo passado, o que poderá ser falso. Contudo, talvez não tivesse percebido como os mecanismos de controlo do pensamento de hoje são infinitamente mais poderosos do que aqueles que existiam nos dias da fundação dos beneditinos. Não será mesmo inverosímil pensar que as pequenas comunidades estarão mais abertas ao vício do que à virtude, mesmo quando elas se propõem à vida virtuosa. A virtude de que ele fala, claro, é a virtude dos gregos, a excelência, tal como nós hoje a entendemos quando dizemos que aquele pianista é um virtuoso. As pequenas comunidades têm menos incentivo para o virtuosismo e são mais permeáveis à viciosidade. Se Março não estivesse no sexto dia e o frio e o vento suspendessem a sua acção deletéria, eu não estaria a escrever coisas destas e, em vez de estar a ler, estaria a fazer outra coisa, que agora não imagino o que seria, mas que nessa circunstância descobriria. Talvez a dormir em frente ao computador ou a gastar gasolina a caminho de um sítio qualquer. O sol dá um ar da sua graça. E mais uma vez me assalta uma dúvida sobre a relação de causalidade existente entre as coisas. Será que o sol foi trazido pelo ensaio do grupo musical da escola aqui ao lado, ou o ensaio é o resultado do sol ter rompido as nuvens para dar uma imagem da sua virtude paternal.
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