Dou comigo a pensar sobre a graça de viver num tempo onde a atribuição de nomes ganha os contornos de arte, de uma das belas artes. Veja-se os processos judiciais. Não há um que não tenha um nome, um nome pomposo. Julgo que será uma imagem de marca com a finalidade de encontrar um nicho de mercado. Também as operações militares, imagino que há mais tempo, têm um nome fruto de uma imaginação criadora. Também elas procuram um nicho de mercado. Consta que a última guerra desencadeada foi denominada por “Fúria Épica”. Se pensarmos um pouco na denominação, percebemos que por detrás desse nome existe uma ignorância adolescente. Ignorância porque as epopeias, quando tratam de guerras, tratam daquelas em que os combatentes estão face a face e não de guerras em que a tecnologia oculta a coragem. Um cobarde pode sair vitorioso e passar por um herói. Nas epopeias, apesar da maldição da guerra, ainda há um módico de honra. Por outro lado, a adolescência da denominação manifesta-se na escolha da palavra Fúria. Um adulto sensato, mesmo que tivesse de fazer a guerra, evitaria dar a entender que a sua opção pelo conflito resulta de um estado emotivo, uma fúria, e não de uma longa deliberação racional. Fúria Épica soa a jogo de computador para adolescente. Talvez por isso, um premiado com o Nobel da Economia chamou à “Fúria Épica” “Operação Insegurança Masculina”. É possível que a arte tenha morrido. Resta a arte de denominar. A criatividade, em refluxo, concentrou-se na tarefa de encontrar imagens de marca para os tenebrosos produtos que tem entre mãos. O triunfo de uma adolescência que não tem fim.
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