Por vezes, tenho uma certa inclinação para máximas. Costumo dizer: a adolescência é uma doença, mas acaba por passar. É evidente que este tipo de sabedoria está assente numa falácia da generalização precipitada. Em muitos casos, a patologia dissolve-se, mas essa dissolução não é universal. Há outros, e talvez não sejam poucos, em que a doença se torna crónica e a adolescência prolonga-se por toda uma vida, mesmo longa. E há quem, já decrépito, ainda pretenda ostentar uma rebeldia juvenil. Tudo isto ocorreu-me por ouvir, lá fora, uns pós-adolescente, pelo aspecto, a gritarem como adolescentes, embora a voz fosse um pouco mais grave. Incomodaram-me o repouso e ofenderam-me o sentimento estético. Enfim, não sou tão sensível quanto isso, tenho uma certa queda para a hipérbole. Para isso e para a tensão arterial elevada, o que me coloca um problema. Não sei se o gosto hiperbólico é a consequência da elevação da tensão arterial ou se, pelo contrário, a tensão sobe devido ao uso de hipérboles. Ou talvez a tensão seja essencialmente hiperbólica e uma coisa e outra sejam apenas a mesma coisa. Não me lembrei de observar, com rigor, a relação entre o uso de hipotensores e a diminuição do uso de hipérboles. Vou preparar um protocolo de observação. Depois de ler o que escrevi até aqui surgiu-me a ideia de que eu posso ser, para infelicidade minha, uma prova da máxima criada por mim, imagino eu, que assevera: a adolescência é uma doença, mas acaba por passar. Não o creio, mas nunca um doente admite que o é.
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