segunda-feira, 13 de julho de 2026

Tempo cruel

O mundo é de uma crueldade atroz. Não, refaço a proposição. O tempo é de uma crueldade atroz. Peguei num romance português de 1964. Nas badanas, estavam excertos de críticas de duas obras anteriores do romancista. Os autores pertenciam à nata da crítica portuguesa dos anos cinquenta e sessenta do século passado. Segundo essas notas seleccionadas com esmero pelo editor, estar-se-ia perante um extraordinário escritor. Em 1964, não tinha idade por me interessar nem pela crítica literária, nem pelos seus objectos. Sei apenas que nunca o nome do autor chegou alguma vez aos meus ouvidos. Foi há pouco tempo que o descobri num alfarrabista, espólio de uma falência editorial. Ninguém sabe quem ele é. O tempo desfez o génio literário e arrastou com ele todos os críticos e a crítica daqueles tempos. Se não houvesse tempo, o génio do autor não se dissolveria e a perspicácia dos críticos permaneceria contra ventos e marés, mas o tempo existe e não é dado à piedade.

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