domingo, 28 de dezembro de 2025

O céu estrelado

O ano espraia-se em lenta agonia, agora que o porto está próximo e da amurada do navio já se avista o cais e a nova pátria a que todos os nós, migrantes no tempo, ansiamos chegar. Que conversa mole, pensei. Depois, o pensamento rodopiou, caiu aqui e ali e ficou-se, por instantes, numa experiência cada vez mais rara. Contemplar o céu nocturno sem que a poluição luminosa interfira com o olhar, deixar-se envolver pelo tremendo espectáculo estelar. Como um macaco mal amestrado, a mente saltou de imediato para uma passagem, de tonalidade lírica, de Kant, no início da Conclusão da Crítica da Razão Prática: Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequente e persistentemente a reflexão nelas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não devo buscar ambas como se estivessem envoltas em trevas ou no transcendente, fora do meu horizonte, nem apenas supô-las; vejo-as diante de mim e ligo-as directamente à consciência da minha existência. Talvez por ter sido educado – educado filosoficamente – na rigorosa disciplina de Kant e do Idealismo Alemão, estas palavras do filósofo de Konigsberg nunca deixam de me surpreender. Sim, é inverosímil que um animal traga em si os ditames da lei moral, que somos mais do que a matéria de que somos feitos e haveremos de entregar à Terra de onde foi retirada, e esse mais manifesta-se na posse da lei moral. Contudo, o céu estrelado sobre mim é uma experiência decisiva. Como Kant sublinha, olhar para uma multidão inumerável de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal. É essa experiência de aniquilação do eu que tantas vezes procurei na vertigem de olhar, na escuridão da noite, o céu estrelado, a multidão inumerável de mundos, a impotência de os perscrutar e de saber deles mais do que as poucas trivialidades – embora grandiosas – que a Astronomia deles me pode dizer. O fim do ano aproxima-se, o que não se aproxima é esses mundo incontáveis, com os seus mistérios e o mistério de todos os mistérios: por que razão tudo isto, comigo incluído, e não o nada, a pura ausência seja do que for, isto para voltar à decisiva questão posta por Leibniz, Cur magis est aliquid quam nihil? (Por que existe algo em vez de nada?), que Heidegger retomou, não sem dramatismo, no século XX. Talvez a pergunta tenha perdido sentido, não porque ela não seja a mais importante, mas porque já não vemos o céu estrelado sobre nós ou porque o que importa seja as festividade de passagem de ano; o que, do ponto de vista pragmático, será o mais sensato.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.