Pela primeira vez em muitos meses, fui caminhar à tarde. Saí de casa por volta das cinco. E descobri que, de um momento para o outro, o Inverno emigrou e foi substituído pela Primavera. Via-se no rosto das pessoas com que me cruzava, nas magnólias floridas, no cântico dos pássaros, no modo como as paredes reverberam sob o impacto dos raios solares. Caminhei devagar para que esta Primavera antecipada se me entranhasse nos olhos e pudesse trazê-la para aqui, para a narrar como acção de graças. Acção de graças foi acto que perdeu sentido, talvez as pessoas pensem que aquilo que lhes sucede de agradável e bom seja mérito seu, mesmo um dia de sol, mesmo a bonança dos elementos. Ora, se perdessem algum tempo a observar-se e a observar o que acontece, talvez descobrissem que o mérito com que se revestem nasce mais do acaso, da fortuna, do que lhe pertence. Mas as pessoas inteligentes e altamente empenhadas não têm mérito? Talvez, mas há uma coisa que lhes deve moderar o entusiasmo: não escolheram ser inteligentes e, provavelmente, também não escolheram ter um carácter que as torna empenhadas. Saiu-lhes na lotaria genética. Deveriam estar gratos e entregar-se a uma contínua acção de graças, não vá a inteligência soçobrar num escolho ou o empenho ser atingido pela acédia, esse terrível pecado que perseguia os monges do deserto.
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