Encontram-se nos mais inesperados lugares sinais de democratização do gosto. Segundo Ruth Benedict, O Crisântemo e a Espada, um dos pequenos prazeres do corpo, no Japão, é o banho quente. Para o mais miserável produtor de arroz e para a mais humilde criada como para o aristocrata rico, o banho diário em água extremamente quente faz parte da rotina de fim de tarde. Aqueles a que tudo separa são unidos por este ritual. Este nada tem que ver com a higiene corporal, pois esta deve ser realizada antes da entrada no banho quente. Uma dúvida surge ao leitor: será que o rito democratizante existe porque ainda todos se reconhecem como pertencentes a uma comum humanidade, ou existirá para que todos sejam obrigados, apesar das resistências que possam ter e por estranho que socialmente lhes pareça, a reconhecer que fazem parte ainda de uma só espécie, que entre eles há uma fraternidade que o tempo, a fortuna e os talentos parecem apostados em dissolver. Talvez tudo isto esteja errado e o banho não seja um ritual de inclusão, mas de exclusão. Seria um sinal de identificação de todos os japoneses, mas excluiria todos os outros, esses não japoneses que desconhecem a arte do banho e o prazer do corpo que lhe está associado. Será essa uma das características de qualquer ritual, incluir e identificar os que o praticam, por estranhos que sejam, e excluir aqueles que o não praticam, quão semelhantes possam ser. E nisto – o ritual – seria uma imagem da vida, que não será outra coisa do que um jogo de inclusões e de exclusões. O pior que pode acontecer a um jogador é ser excluído do jogo.
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