segunda-feira, 6 de julho de 2026

Anjos e grandes-penalidades

Continuo em maré de futebol. Faltar-me-á tema, por certo. Há aquele romance de Peter Handke, que Wim Wenders transformou em filme, com o curioso título de A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty. Quando vejo um penalty, tento descortinar essa angústia que tomaria conta do guarda-redes, mas, para dizer a verdade, não a vejo. Handke enganou-se, pois a angústia está toda do lado daquele que vai marcar o penalty. Ele olha para o guarda-redes e sente o peso de falhar aquilo que nunca se poderá falhar. Caso o jogador fosse letrado, amante de poesia, deveria questionar se aquele guarda-redes é um homem ou um anjo. Como os anjos, também os guarda-redes voam. Então perguntar-se-ia se os versos de Rilke, no início da segunda elegia de Duíno, descrevem aquele que deve derrotar com um pontapé bem colocado. Cada Anjo é terrível. E no entanto, ai de mim, / invoco-vos, ó aves quase mortíferas da alma, / sabendo quem sois. Aqueles guarda-redes que voam podem ser anjos e trazem neles o terrível, a ameaça de morte para a alma do chutador. Ele treme e sente a angústia. O seu pontapé sai propício para o anjo apanhar a bola e desferir nele, na sua alma de pecador, pois pecar é falhar o alvo, o terrível castigo do penalty falhado. Talvez nem todos os guarda-redes sejam anjos, mas alguns sê-lo-ão de certeza absoluta. Disfarçam-se de homens, mas voam, desferindo golpes mortais nos avançados que julgam, como Jacob, poder lutar com um anjo. Não podem.

domingo, 5 de julho de 2026

Calar-se

Há dias falei por aqui no romance policial A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. Como informei na altura a obra tem por subtítulo Requiem pelo romance policial. Pretenderia ser assim um anti-romance policial. Há um argumento implícito que atravessa a obra. O romance policial tem um defeito estrutural: ele coordena a narrativa de um modo lógico. A narrativa não será outra coisa do que o encadeamento das descobertas até se chegar à conclusão, à descoberta do autor do crime. Ora, o narrador, o doutor H., um polícia reformado pretende demonstrar a um autor de romances policiais – eventualmente, ao próprio Friedrich Dürrenmatt – que a vida não é assim, que nela pode intervir aquilo que os antigos chamavam fortuna, a qual não obedece a qualquer esquema lógico. O romance é, então, a demonstração destas premissas. No entanto, o autor parece não ter consciência da impossibilidade da sua tese. Aquele romance, ou qualquer outro, devido à estrutura tanto da linguagem como da narrativa, é sempre a imposição de uma racionalidade sobre uma matéria-prima verbal. A fortuna, mobilizada para provar a tese do doutor H., inscreve-se naquela narrativa com uma precisão lógica e racional. Na palavra logos, os gregos pensavam tanto o discurso como a razão. Isso não acontecia por acaso, mas porque as duas coisas, linguagem e razão, estão intrinsecamente ligadas e toda a linguagem, mesmo a mítica e a poética, é um ordenamento racional do mundo. O que escapa à razão, escapa também à linguagem e vice-versa. Por coisas como estas terá Ludwig Wittgenstein encerrado o Tratactus Logico-Philosophicus do modo mais sensato que se possa imaginar: Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar. Por mim, calo-me.

sábado, 4 de julho de 2026

Adepto consumado

Estou um adepto consumado do futebol. Ontem fiquei a ver o jogo de Cabo Verde com a Argentina até ao dia de hoje. Os cabo-verdianos foram extraordinários e, como as árvores, morreram de pé. Isto é uma reminiscência de uma peça de teatro que a televisão, no tempo em que só havia um canal, que começava a trabalhar por volta das sete da tarde, transmitiu, uma e outra vez, com a actriz Palmira Bastos. Voltando à minha condição de adepto. Tenho uma idiossincrasia quando vejo o futebol. Retiro o som e oiço outra coisa. Pode ser música ou um vídeo do Youtube sobre um assunto que me interesse. Há coisas insuportáveis. As piores são os Rónaldos e os Féliks. Ronaldo, que começa por ser Cristiano, lê-se, em português de Portugal, Ru-nál-du. Quanto ao João Félix, eu que tive um tio-avô Félix, em português de Portugal, é Félis, como lápis. Um antigo ministro chama-se Bagão Félix e ninguém lhe chama Bagão Féliks. Parece que a desculpa dos comentadores da bola é que o jogador diz que os pais sempre lhe ensinaram que o seu nome se pronunciava Féliks. Fiquei surpreendido com a explicação, mas depois achei que era uma emanação das liberdades individuais. Cada família ensina os filhos a pronunciar as palavras como desejar e isso torna-se a norma, quase posso dizer, tendo em conta a importância dos comentadores de futebol, a norma culta da língua. E teremos tantas normas cultas quanto a capacidade inventiva das famílias. Féliks, Félis, Feliz, e assim por diante. Também haverá Rónaldo, Ronaldo (Ru-nál-du), Rónaldó e tudo o que os pais quiserem. Seja como for, tenho pouca paciência para os linguistas da bola e para a criatividade das famílias. Chopin e Liszt parecem-me bons para acompanhar o saltitar da bola, mas também uma entrevista a Emmanuel Todd, uma discussão sobre a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X e o cisma na Igreja ou uma conferência sobre Hegel. O importante é que a bola role e que Portugal, no próximo jogo, mesmo cheio de Rónaldos e Féliks, utilize a táctica do quadrado, a padeira e a ala dos namorados, enviando os castelhanos para Castela. Seja como for, com os castelhanos enviados para Castela ou os portugueses para a Lusitânia, tornei-me um adepto de Cabo Verde.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Bastou o título

Há múltiplas razões, ou desculpas, para comprar um livro. Eu tenho várias, entre elas “porque me apetece”. Também compro livros sem razão ou com razões tão secretas que nem eu as conheço. Contudo, há pouco fui levantar um livro, encomendado há dias, e cuja razão principal foi o título: O Crisântemo e a Espada. É um belíssimo título, que só por si merece a compra. Devemos, porém, desconfiar das razões que apresentamos para nós próprios. A autora é uma conhecida antropóloga cultural, Ruth Benedict que também escreveu Padrões de Cultura, publicado há muito em Portugal pela Gulbenkian. Ora, além da autora, há o subtítulo: Padrões da Cultura Japonesa. Para os ocidentais – pelo menos para mim – as culturas orientais como a chinesa, a coreana, a vietnamita, a indiana e a japonesa são mistérios. Como todos os mistérios, exercem sobre qualquer um grande atracção. Para mim, talvez acima de todas as outras, esteja a japonesa. O Zen, a música tradicional e o grande cinema japonês são manifestação de uma grandeza que não sei medir, mas que gostava de compreender. Essa, dir-se-á, é a grande razão para a compra do livro. Em aparência, sim, mas só em aparência. A decisão estava tomada antes de saber de que tratava a obra. Bastou o título.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Patriota da bola

Mais logo, a partir da meia-noite vou ser um patriota da bola. Espero aguentar a pé firme até ao começo do jogo de Portugal com a Croácia. E, animado pela fé, hei-de ver o desafio sem adormecer, mesmo que Portugal aposte naquele tipo de futebol soporífero com que adormeceu o Congo, a Colômbia e a si mesmo. Não sou um patriota da bola completo pois não tenho uma camisola da selecção, nem uma bandeira de Portugal, daquelas com pagodes chineses no lugar de castelos, nem um simples cachecol com as cores nacionais. O que mais se aproxima é uma toalha de banho encarnada, mas falta-lhe o verde. Por isso, não a posso usar com símbolo de patriotismo futeboleiro. Estive hoje todo o dia em Lisboa, na baixa e em Campo de Ourique. Enquanto me tentava refugiar do avassalador ataque de calor, com os termómetros das farmácias a marcarem 39 graus, cogitava que Portugal não se iria safar desta. Não me refiro à vaga de calor, mas á eliminação pelos croatas. Não vi qualquer sinal de interesse pelo jogo, por Portugal, pela bola, por bandeiras e cachecóis. Mau presságio, pensei de mim para mim. Depois, relativizei a suspeita. Com aquela temperatura, nem os maiores patriotas da bola se afoitam a expressar qualquer sentimento, quanto mais o tórrido sentimento de amor pátrio pela selecção. Talvez, e esta é uma hipótese falsificável (logo, terá valor científico), o patriotismo futebolístico seja inversamente proporcional à temperatura. Quanto mais desce esta, mais sobe o ardor no apoio aos nossos. O pior é que isto também é válido para os patriotas do outro lado. Ardores contra ardores dão-me a esperança de não ressonar antes da primeira pausa para hidratação.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Uma poética

Navego entre dois livros, O Reino, de Emmanuel Carrère, e A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. De um lado, o assunto é Paulo de Tarso, conhecido, nos dias de hoje, como S. Paulo. O escritor francês não escreve uma biografia de um dos pais fundadores daquilo que veio a ser conhecido como Cristianismo. Imagina esse Paulo a partir do texto de Lucas, caso seja dele, Actos dos Apóstolos e das cartas do próprio Paulo. Já a obra do escritor suíço é um romance policial, mas possui como subtítulo Requiem pelo romance policial. Em ambos os casos, estamos no domínio do religioso. Paulo e uma missa dos mortos. Escrevi acima que navego entre dois livros. Isto significa que ambas as obras são margens pelas quais deslizo no rio do tempo. Esta imagem heraclitiana está explorada até ao tutano, mas, como reconheço muitas vezes, sou falho de imaginação. Por exemplo, nunca teria imaginação para imaginar S. Paulo. Mas se tivesse alguma e fosse obrigado a escolher uma personagem do Novo Testamento, escolheria S. João. Ter escrito o Evangelho com o seu nome e o Apocalipse é obra. Ou talvez não. A tradição cristã diz que foi a mesma pessoa que escreveu ambos os livros. O consenso académico diz que foram escritos por pessoas diferentes. É este o problema da academia. Encontra razões – muitas vezes, sólidas – para minar a tradição. Platão, na República, a certa altura fala da nobre mentira. Este contaria uma história mítica com a finalidade política de manter a unidade da comunidade, uma unidade fundada na aceitação do seu lugar na sociedade. Hoje, chamar-se-ia a esta nobre mentira ideologia. Voltando a João e à tradição cristã. Muitas narrativas cristãs são nobres mentiras, servem para manter a comunidade coesa e para que a verdade, aquela que é fundamental, possa ser transmitida. A tradição não é uma historiografia, mas uma estratégia de transmitir algo considerado essencial através de produtos da imaginação. Dito de outra maneira, a tradição é uma poética.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O melhor é ignorar

O tempo é um imenso cemitério. Sem contemplações, vai sepultando, um a um, os meses e os anos. Nunca se cansa e é inexorável. Sim, é verdade que, de quatro em quatro anos, hesita perante Fevereiro. Não sei que argumentos este lhe dará, nessa altura, para que lhe seja concedido mais um dia. Mas nunca mais do que isso. Este Junho está prestes a desaparecer. A pergunta que cada um deverá fazer a si próprio é a seguinte: o que fizeste deste Junho que te foi dado? O melhor, porém, é esquecer a pergunta. Razões para isso? Duas. Em primeiro lugar, porque a resposta pode ser muito desagradável, que não se tenha feito grande coisa com este mês que habita duas estações. Depois, porque a pergunta é daqueles que causam ansiedade. Lembra-nos que o tempo nunca pára de passar e que cada vez temos menos. Ora, vivemos num mundo que não gosta de realidades desagradáveis nem de situações de ansiedade. A solução será não fazer perguntas e esperar que chegue Julho, para depois vir Agosto e assim sucessivamente. Não conseguimos parar o tempo com as mãos. Ignoremo-lo.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Falta de sereias

Hoje fui à praia. Caminhei pela areia à beira-mar, sentei-me e até, por instantes, me deitei ao sol. Parece que tenho de abandonar a resistência ao contacto, fora do espaço restrito de bares e esplanadas, dessa sólida instituição do mundo moderno. A aversão à praia tem alguns anos, mas não é muito antiga. Ainda tinha prazer de estar lá com as minhas netas. Depois, elas foram crescendo, eu fui envelhecendo, e a combinação de areia, sol e pessoas começou a causar um desgosto cada vez mais profundo. Por enquanto, pensei na ida de hoje, a coisa está aceitável, pois não existe uma multidão. Tomei, contudo, a decisão de lá ir como se fosse o pagamento de uma promessa, que não fiz, ou uma terapia para qualquer coisa que seja tratável com praia, sempre há-de haver alguma coisa que exija esse tratamento. Devia escrever sobre as idas, as possíveis idas. Compor uma epopeia, em que seria o herói, um Ulisses, mas há um problema. Faltam-me as sereias, e sem elas não há epopeia que se aguente.

domingo, 28 de junho de 2026

O bem, o belo e o terrível

Talvez a beleza seja sempre terrível. Consta que Platão terá dito que as coisas belas são difíceis. Deveria antes ter dito que são terríveis. Veja-se a segunda estrofe do poema Im Osten (No Leste), de 1914, de Georg Trakl, na tradução de João Barrento: De sobrolhos desfeitos, braços de prata, / A noite acena para os soldados moribundos. / À sombra do freixo outonal / Soluçam os espíritos dos que caíram mortos. A beleza do poema, que a tradução não trai, é uma encenação do terrível. Será por isso que as mulheres verdadeiramente belas, que não devem ser confundias com as convencionalmente belas, surgem envoltas num véu que, ao mesmo tempo, esconde e manifesta um perigo. Não que sejam agentes dos poderes do mal. Pelo contrário. Reflectem algo de divino e, por isso, de bom. O bem, todavia, é tão excessivo para os mortais que muitas vezes lhes surge como um perigo, como terrível, como beleza. No poema de Trakl, não é a guerra que é bela, mas o poema onde ela se declina. Esse poema, como uma mulher bela, traz consigo a sombra do terrível, que se projecta sobre nós e nos deixa perplexos, perdidos entre o fascínio e o temor.

sábado, 27 de junho de 2026

O que é a verdade?

Claro que temos o dever moral de nos preocuparmos com a verdade, embora não seja fácil saber o que significa esse significante. Contudo, e talvez porque ela vive em estreito concubinato com vários significados, temos de ser maleáveis e não fazer de tudo uma gesta em defesa da honra perdida da donzela. Há pouco, estava a passear pelo antigo Twitter, agora reduzido a um mero X, como se fosse a incógnita de uma equação, e deparei-me com um vídeo curioso. Num jardim zoológico, separados por uma grade estavam um leão e um gato. O leão, com problemas de afirmação, soprou para o gato e aproximou o focinho das grades. O gato, porém, deu-lhe uma sapatada nesse mesmo focinho e o pobre bicho amainou e encolheu-se. Vendo isto, para não deixar a espécie mal vista perante um longínquo primo, a leoa veio pôr o gato na ordem. Rugiu e soprou enquanto aproximava o focinho, agora o dela, das grades. O gato deu-lhe o mesmo tratamento e ela, a rainha da selva, retrocedeu espantada e virou as costas ao primo. É evidente que o vídeo é concebido pela Inteligência Artificial e aquilo que vemos não reproduz nenhum acontecimento. Ora, os comentadores foram implacáveis a denunciar a falsidade da peça. Houve mesmo quem afirmasse que o focinho dos leões não podia passar entre grades. É esta gente, falha de maleabilidade, que e é incapaz de se deixar tocar por uma imaginação desejosa de refazer a ordem do mundo. Não é possível um pequeno gato pôr em sentido um casal de leões? Não é, mas devia ser. A reivindicação da verdade neste caso é apenas sintoma de falta de imaginação. Podemos imaginar um mundo possível em que os gatos não tenham medo dos leões. Talvez, pensei, o vídeo nem tenha sido produzido pela IA, mas tenha sido filmado num desses mundo possíveis, onde os pequenos gatos se entretêm a pôr enormes leões na ordem. O que sabemos nós de mundos possíveis?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Tentação e queda

Resoluções de fraca intensidade. Refiro-me às minhas. Tinha decidido fazer um jejum mais ou menos prolongado de compra de livros. Necessitei, porém, de ir à FNAC comprar uns livros de fotografia de Sebastião Salgado para oferecer. Ofertas não estavam incluídas na penitência. Descobri, de imediato, que afinal a minha decisão não era uma decisão, mas um desejo vago de me santificar pela renúncia. Cedi à primeira – e a mais vergonhosa, diga-se – tentação. Um livro de fantasia, imagine-se. Trata-se de Os Túmulos de Atuan, o segundo volume do ciclo de Terramar de Ursula Le Guin. Este ciclo vem, não poucas vezes, indicado como literatura juvenil. Não argumento. Tinha lido há muitos anos os 3 volumes iniciais publicados na colecção de ficção científica dos Livros do Brasil. Lembro-me de ter gostado. Quando a Relógio d’Água, em 2024, publicou Um Feiticeiro de Terramar, o primeiro volume da saga, comprei-o de imediato e li-o, ainda com prazer. Fiquei a aguardar a continuação da publicação. Já desesperava. Gostava que a editora fosse mais rápida na publicação do conjunto, seis volumes, pois pelo ritmo actual ainda demorará oito anos para chegar ao fim. Caído na primeira tentação, o caminho estava aberto para outras. Havia que compensar com seriedade intelectual a queda juvenil. Não resisti a Cenas de Uma Infância, de John Fosse, e ao novo romance de Thomas Pynchon, Caso Fantasma. Leitura de intelectual sério. Ainda pensei, culpa do suplemento Ípsilon do Público, comprar o romance de Patrícia Portela, Hoje, 3 de Maio. Não comprei. Não foi, porém, uma renúncia. Não havia ou não o vi, apesar de o ter procurado. Quando cheguei ao carro pensei que talvez não tivesse vocação para a santidade, caso esta implique a renúncia. Para jejum, bastou ontem movido por causas médicas, disse para com os meus botões, que na altura eram apenas três, um nas calças e dois no pólo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Que dia

Tem chovido bastante. Aguaceiros, por vezes, muito fortes, mas não ouvi trovejar. Ainda não saí de casa, nem comi, mas bebi, bebi bastante. Água e uma mistela resultante do casamento entre água, mais uma vez, é um pó inventado em algum laboratório do inferno. Assim, desde as seis da manhã, a fraqueza caiu sobre a imaginação, que já de si é pouca. Ao menos que chova. Daqui a pouco saio para me pôr nas mãos de uma médica que não conheço, mas, como estarei anestesiado, não me interessa o seu aspecto. Não é com a beleza que sonho, mas com uma bela refeição e um bom vinho. Para ajudar a passar o tempo, pus-me a ver um filme de Joseph L. Mankiewicz, Bruscamente, no Verão Passado, com Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor. Uma óptima companhia.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Bola, Pátria, Vergonha

Reconheço. Ontem gostei mais de ver jogar Portugal. Os usbeques não serão uma potência do pontapé na bola, mas isso não invalida o juízo de gosto feito atrás. Note-se uma coisa para aclarar o valor das minhas afirmações sobre futebol. Porventura, sobre todo o resto. Eu faço juízos de gosto. Não faço juízos estéticos, juízo técnicos, juízos cognitivos. Dito de outra maneira, não faço juízos avaliativos. Expresso um sentimento meramente subjectivo, sem que por detrás dele exista capacidade para fundamentar com conhecimento um juízo de avaliação. Gosto ou desgosto de um jogo do mesmo modo que gosto de laranjas e detesto figos. Sobre laranjas e figos, nunca pensei. Saboreei e isso bastou. No outro dia vi um jogo de que gostei bastante, o Uruguai – Cabo Verde, mas também vi outro de que não gostei, o Argentina – Áustria. Razões para isso? Não tenho razões universais. Não tenho capacidade para avaliar o jogo do ponto de vista da beleza ou da técnica. Falta-me conhecimento. O que me leva então a fazer as afirmações que fiz? Bem, o jogo entre o Uruguai e Cabo verde soube-me a um boa laranja. Já o da Argentina e da Áustria soube-me quase a figo. Era um pouco melhor, mas, mesmo assim, longe de uma boa laranja. Olho para o que escrevo e penso: este narrador está a ficar um adepto. Não, mas temos de acompanhar o espírito do tempo, e o tempo, além de quente, está impregnado de bola. Contudo, há uma coisa a que não consigo converter-me, aos comentadores dos jogos. Então quando joga Portugal, tudo aquilo desaba num patriotismo sem pés nem cabeça, numa gritaria absurda como se isso fosse a mais alta expressão de patriotismo. O dissidente polaco Adam Michnick e o historiador italiano Carlo Guinzburg propõem uma visão do patriotismo mais funda, baseada na vergonha. Michnik: O patriotismo define-se pela medida de vergonha que uma pessoa sente pelos crimes cometidos em nome do seu povo. Por seu lado, o italiano escreve logo no início de Il Vincolo della Vergogna: Há muito tempo apercebi-me subitamente de que o país a que pertencemos não é, como quer a retórica, aquele que amamos, mas aquele de que nos envergonhamos, ou de que nos podemos envergonhar. A vergonha pode ser um laço mais forte do que o amor. Verifiquei esta hipótese junto de amigos provenientes de diversos países. Tanto Michnik como Guinzburg tornam manifesto que sentir vergonha por um acto da sua comunidade expõem um laço de pertença muito mais profundo do que as exibições vulgares de patriotismo, aquele de que o Dr. Johnson dizia: O patriotismo é o último refúgio de um canalha. Esta deriva sobre o patriotismo, dirá o leitor, nada tem que ver com o futebol e o juízos de gosto sobre ele. Talvez tenha, pois assim como se qualifica como bom o jogo de que se gostou, também reconhecemos como nossa a pátria que nos desgostou. Podemos transformar o sentimento da vergonha num juízo de gosto, no caso de desgosto. E ouvir a retórica patrioteira incrustada no bico de uma chuteira causa-me, além de desconforto, vergonha.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma patologia desconhecida

Pode-se pensar no assunto em analogia com uma prescrição médica. Imaginemos que se vai ao médico e ele receita, durante três ou quatro semanas, a toma diária de um medicamento. É o que me acontece agora com o Mundial de Futebol. Vejo um jogo por dia. E, como deve acontecer com a medicação, se falho um dia, não vejo dois no outro. O problema, e há sempre um problema que espera por nós ao virar da esquina, é que a analogia ainda contém uma outra coisa. Enunciemo-la em forma de pergunta: Se tomo um medicamento diariamente para resolver uma situação patológica, qual será a patologia que pretendo curar ao ver um jogo de futebol diário? Quando enunciei, pela primeira vez, esta interrogação, pensei em várias possibilidades. Nenhuma, porém, me pareceu ser tratável com jogos de futebol. Um leitor precipitado dirá: não é possível que jogos de futebol tratem doenças, nem do foro psiquiátrico. Isto, porém, é apenas uma presunção. A minha resposta – provisória e falsificável como todas as afirmações científicas – é a seguinte: se os jogos de futebol são fármacos, então é necessário que exista pelo menos uma doença  a que essa medicação seja aplicada. O facto de não a conhecermos, não significa que não exista. Talvez esta proposição não seja muito falsificável. Aqui joga-se um drama epistemológico entre a falsificabilidade e a falácia dita argumentum ad ignorantiam. Mas não vou contar a história desse drama, pois é tão maçadora quanto a forma de Portugal jogar.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Heteropessimismo

Ouvi hoje pela primeira vez o termo heteropessimismo. Não é novo, terá surgido em 2019, mas sou lento na actualização. Descobri, com este episódio, de que estou sete anos atrasado. Sou uma pessoa serôdia, digo para mim mesmo. Em linguagem do campo, há as colheitas temporãs e as serôdias. Eu sou do tardio, nada de precocidades. Pelo contrário. Voltemos ao heteropessimismo. É um sentimento essencialmente feminino. Não sem razão. Mulheres sentem que evoluíram social e emocionalmente de forma muito mais rápida do que a maioria dos homens. Quando descobri o novo termo que me ilumina neste texto, alguém diz que as mulheres vivem nos dias de hoje e os homens estão no século passado, nos anos 80. Discordei, claro. Muitos homens vivem no século XIX e, no fundo, têm uma visão das mulheres não muito diferente dos talibans. Isto é um drama para as mulheres. Não encontram um parceiro à sua altura, com quem possam compartilhar a vida. Por muito estranho que possa parecer, o principal problema político dos dias de hoje é o estatuto da mulher. É este estatuto que leva os homens a escolherem o primeiro idiota que lhes aparece pela frente com um discurso de apologia de putativas virtudes másculas. No fundo, o que se deseja é reduzir as mulheres à dimensão dos homens: crianças grandes, que julgam que a vida é uma adolescência eterna. Não devia escrever sobre estas coisas. Sou um mero narrador cujo autor lhe proíbe os assuntos políticos. Contudo, o que me mobilizou não foi a política mas a descoberta de uma palavra nova. Aumentar o vocabulário é aumentar o mundo onde se vive.

domingo, 21 de junho de 2026

Sem tragédia nem farsa

Na praceta aqui em baixo, um bando de crianças joga às escondidas. Sei que esse é o jogo porque oiço contar. Também quando era criança o jogo das escondidas tinha essas contagens. Aquele que ficava de descobrir os outros tapava os olhos e entregava-se a uma contagem, antes de lhe ser permitido procurar os companheiros de jogo, que, entretanto, se tinham escondido. Parece-me haver uma ligeira mudança. As contagens no meu tempo eram menos generosas. Há pouco, ouvi contar até sessenta. Parecia uma eternidade. Não me lembro até quanto se contava naqueles dias. Também não me lembro se havia uma regra fixa para a contagem. Há uma hipótese. Com a passagem dos anos, há uma dilatação do tempo concedido a quem se esconde. Se for assim, daqui a trinta ou quarenta anos, contar-se-á até cem e só depois se parte em busca dos colegas escondidos. Contudo, o que me espanta é haver gente, a esta hora, na rua entregue a estas actividades. O calor por aqui ainda é abrasador, apesar de já existirem sombras generosas. É provável que há sessenta anos também eu não sentisse calor, enquanto me escondia ou contava. Isso levou-me a uma célebre frase de Marx enxertada numa outra célebre frase de Hegel: Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da história universal surgem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Estas frases são interessantes por aquilo que não dizem: os pequenos acontecimentos e as pequenas personagens que não ficam na história podem ocorrer repetidamente, pois não são tragédia que se replica como farsa. Eu joguei às escondidas repetindo o jogo de muitas gerações anteriores a mim. Aquelas crianças, passadas décadas continuam a repetir o jogo. Sem tragédia nem farsa, porque na repetição de geração em geração o que acontece é uma fuga à história e um mergulho num ritual cíclico que retornará eternamente na pureza da sua candura.

sábado, 20 de junho de 2026

Da insónia e do caos

Último dia de Primavera. Entrei nele ensonado, pois dormi mal. Talvez por isso, só agora descubro a efeméride. O que podemos pensar dela?  A Primavera de 2026 vai desaparecer amanhã e nunca mais voltará. Virá outra no seu lugar, mas não será a mesma nem a mesma coisa.  Nestes dias, que são a maioria, em que acordo de uma noite mal  dormida, sinto uma inclinação, mais acentuada do que nos outros, para ter meditações desprovidas de sentido e de bom senso. Sou uma excepção à constatação  de Descartes de que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois não há ninguém que queira ter mais do que aquilo que tem. Eu, pelo contrário, gostava de ter mais bom senso, muito mais.  Ora o que acontece nos dias como o de hoje?  Penso em coisas disparatadas. Por exemplo, que não existe Primavera, nem tempo, nem espaço. São uma projecção da mente dos seres humanos. Kant disse qualquer coisa do género: são formas puras da sensibilidade, isto é, são o modo como organizamos a experiência.  Kant não me interessa, pois ele diz de outra maneira aquilo que os mitos diziam: trata-se de uma cosmogonia, a passagem do caos para um cosmos, um mundo organizado. Seríamos os criadores desses cosmos. Pequenos deuses. Contudo, não partilho do optimismo do filósofo de Konigsberg. O caos é onde habito. Espaço e tempo esqueceram-se de mim e a minha sensibilidade não tem qualquer estrutura. Nem sei por que razão falo da Primavera que acaba, se ela é coisa que não existe. Bom seria dormir melhor a próxima noite.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Monomania

Talvez se esteja a passar alguma coisa comigo que seja sintoma de alguma patologia mental. Vi, de seguida, cerca de três dúzias de filmes de Ingmar Bergman. De seguida não significa começar a ver um após acabar outro. Talvez tenha visto um por dia, com um ou outro intervalo. Agora, acabei de ler o quarto romance seguido de Vergílio Ferreira. Será que sofro de monomania. Talvez, embora seja uma monomania restrita. A fixação no objecto não é muito prolongada. Talvez seja uma monomania saltitante, passando de um objecto para outro. O que me vale é que a persistência não é muito grande, caso o desejo não colabore. No caso de Bergman, houve uma franca colaboração, o desejo de ver o próximo filme era grande. Já no caso de Vergílio Ferreira, o desejo foi diminuindo, de tal modo que, antes de passar para o quinto romance, pus-me a ler um de Emmanuel Carrère e não sei se não vou continuar a ler as obras deste autor. A ideia de monomania, segundo fui ver, surgiu no início do século XIX como a designação de uma insanidade parcial, uma obsessão psicológica isolada numa mente que, em todo o resto, era normal. É esta última proposição que me leva desconfiar do meu diagnóstico. Ver de seguida três dúzias de filmes do Bergman pode ser uma obsessão psicológica, mas nada prova que a minha mente seja, em todo o resto, normal. Não vou, porém, julgar em causa própria. O mais decepcionante desta história é que a medicina e a psiquiatria abandonaram o conceito de monomania. Este desceu do altar da saúde e da patologia para designar um hobby praticado de modo intenso. A minha equação, perante este panorama lexical e conceptual, é a seguinte: caso a monomania signifique uma patologia, aceito que ver três dúzias de filmes do Bergman é um sintoma doentio. Se for apenas um hobby, declaro que não sou monomaníaco. Não tenho hobbies, não quero vir a ter e não me dou com ninguém que os tenha. Agora, tenho de contar os romances que o Emmanuel Carrère escreveu até hoje, talvez os leia todos de seguida.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A vulgaridade da verdade

Está calor. Não é uma frase extraordinária, mas é verdadeira. Talvez exista um conflito entre frases verdadeiras e frases extraordinárias. As verdadeiras expressam-se de modo vulgar, ordinário. As outras, apesar de saírem da vulgaridade e da ordem, são falsas. Será a falsidade que as faz extraordinárias. Assim, quanto mais invulgar for uma frase, mais devemos desconfiar dela. Vejamos a seguinte frase: água é um líquido incolor e transparente, insípido e inodoro, composto de hidrogénio e oxigénio, de fórmula química H2O. Obrigado, dicionário da Porto Editora. Eis uma definição vulgar e, por isso verdadeira. Mais do que isso. Ela tem no seu núcleo aquilo que é essencial a uma frase vulgar e, por isso, verdadeira: ser incolor, transparente, inodora e, acima de tudo, insípida. Fico por aqui, pois esta é um contribuição decisiva, note-se, para o problema filosófico da verdade. Esqueçamos as teorias da verdade como correspondência, da verdade como coerência, da verdade como utilidade prática, da verdade como desocultação, da verdade como consenso, e outras que a falta de fôlego mo obriga a omitir. É verdade toda a afirmação ou proposição vulgar. A vulgaridade é o critério epistémico (que palavra horrível) decisivo. O calor afecta o humor e o raciocínio de qualquer ser humano. Eis uma verdade.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Portugal, um grande jogo

Uma grande partida de futebol. Sim, estou a referir-me ao Portugal – Congo. No entanto, percebi a existência de alguma dissonância sobre os objectivos do jogo. Por exemplo, o Congo parecia convencido de que o objectivo do futebol é colocar a bola dentro da baliza adversária. Por certo, um equívoco. Portugal, pelo contrário, apresentou um jogo moderno, supereficiente e altamente rentável. Enquanto os congoleses têm uma visão arcaica, quase medieval do futebol, os portugueses têm uma visão moderna, defensora da economia de mercado, onde a propriedade privada, e não a honra de meter golos, é o objectivo. Assim, 75% de posse de bola foi portuguesa. Este é o objectivo numa economia moderna de mercado, a posse. Depois, enquanto os congoleses pareciam desesperados para se desfazer da bola, os portugueses jogavam com ela. Para o lado, para trás, outra vez para o lado, outra vez para trás. Estes passes dos portugueses são análogos a pôr dinheiro num banco para o ver crescer, acumulando juros, embora esta analogia esteja um bocado ultrapassada, pois os bancos deixaram de pagar juros e cobram taxas. Mas podemos imaginar bancos antigos, dos sérios. Portanto, como os antigos investidores depositavam dinheiro para ele crescer, os portugueses jogavam para o lado e para trás para crescer a sua propriedade. E conseguiram. Coitados dos congoleses, com uma quota de 25% na posse de bola nem têm capacidade para numa assembleia geral de sócios fazer vingar qualquer proposta. Isto é o que acontece a quem acha que o futebol é para marcar golos. A continuar assim, Portugal acabará como proprietário de todas as bolas do Mundial.