Hoje fui à praia. Caminhei pela areia à beira-mar, sentei-me e até, por instantes, me deitei ao sol. Parece que tenho de abandonar a resistência ao contacto, fora do espaço restrito de bares e esplanadas, dessa sólida instituição do mundo moderno. A aversão à praia tem alguns anos, mas não é muito antiga. Ainda tinha prazer de estar lá com as minhas netas. Depois, elas foram crescendo, eu fui envelhecendo, e a combinação de areia, sol e pessoas começou a causar um desgosto cada vez mais profundo. Por enquanto, pensei na ida de hoje, a coisa está aceitável, pois não existe uma multidão. Tomei, contudo, a decisão de lá ir como se fosse o pagamento de uma promessa, que não fiz, ou uma terapia para qualquer coisa que seja tratável com praia, sempre há-de haver alguma coisa que exija esse tratamento. Devia escrever sobre as idas, as possíveis idas. Compor uma epopeia, em que seria o herói, um Ulisses, mas há um problema. Faltam-me as sereias, e sem elas não há epopeia que se aguente.
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