Claro que temos o dever moral de nos preocuparmos com a verdade, embora não seja fácil saber o que significa esse significante. Contudo, e talvez porque ela vive em estreito concubinato com vários significados, temos de ser maleáveis e não fazer de tudo uma gesta em defesa da honra perdida da donzela. Há pouco, estava a passear pelo antigo Twitter, agora reduzido a um mero X, como se fosse a incógnita de uma equação, e deparei-me com um vídeo curioso. Num jardim zoológico, separados por uma grade estavam um leão e um gato. O leão, com problemas de afirmação, soprou para o gato e aproximou o focinho das grades. O gato, porém, deu-lhe uma sapatada nesse mesmo focinho e o pobre bicho amainou e encolheu-se. Vendo isto, para não deixar a espécie mal vista perante um longínquo primo, a leoa veio pôr o gato na ordem. Rugiu e soprou enquanto aproximava o focinho, agora o dela, das grades. O gato deu-lhe o mesmo tratamento e ela, a rainha da selva, retrocedeu espantada e virou as costas ao primo. É evidente que o vídeo é concebido pela Inteligência Artificial e aquilo que vemos não reproduz nenhum acontecimento. Ora, os comentadores foram implacáveis a denunciar a falsidade da peça. Houve mesmo quem afirmasse que o focinho dos leões não podia passar entre grades. É esta gente, falha de maleabilidade, que e é incapaz de se deixar tocar por uma imaginação desejosa de refazer a ordem do mundo. Não é possível um pequeno gato pôr em sentido um casal de leões? Não é, mas devia ser. A reivindicação da verdade neste caso é apenas sintoma de falta de imaginação. Podemos imaginar um mundo possível em que os gatos não tenham medo dos leões. Talvez, pensei, o vídeo nem tenha sido produzido pela IA, mas tenha sido filmado num desses mundo possíveis, onde os pequenos gatos se entretêm a pôr enormes leões na ordem. O que sabemos nós de mundos possíveis?
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