terça-feira, 18 de junho de 2019

Capital de distrito

Por motivos profissionais, seria lícito pensar que essas razões são penitência por alguns pecadilhos veniais, tive de ir à capital de distrito. Não há nada como capitais e o país está cheio delas, desde as dos distritos até à do fumeiro ou a dos caracóis com urtigas. Se esta ainda não foi criada, certamente sê-lo-á a breve prazo. Sob o céu cinzento a capital do meu distrito estava bisonha, exaurida, bocejava a torto e a direito. Mal escrevo estas últimas palavras o word sublinha-as a verde e informa-me, obsequioso, que formam uma expressão idiomática da linguagem informal. Eu agradeço e o software responde-me com um imperativo hipotético: Pondere o emprego de uma expressão alternativa. Eu ponderar, posso ponderar, mas não deixo de constatar que o mundo se tornou um lugar onde fervilham conselheiros para tudo e para nada. Voltando à capital, lembro-me como ela era garrida e animosa para os olhos que eu tinha na infância e ia lá para ver parte da família. Os olhos envelheceram e a cidade, apesar das inovações no trânsito e a proliferação de rotundas, envelheceu com eles, levando-me a família e os sítios que, na altura e sem o saber, amava. O mundo poderia ser perfeito, mas há nele uma aposta firme e obstinada na imperfeição.

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