quinta-feira, 16 de julho de 2026

Uma vocação

Peguei no estojo dos meus óculos e constatei que ele apresenta já sinais de degradação. Não é apenas a mola que mantinha as duas partes unidas que deixou de funcionar. Também o material que o cobre, onde se encontra imprensa a marca, está desgastado. Contudo, olho para ele e ainda o reconheço como o estojo dos meus óculos. Isto, talvez por estar entregue a uma vida de ócio, recordou-me uma eventual oposição entre o pensamento grego e o chinês. Aristóteles, perante o estojo, faria a pergunta: o que é esta coisa? Se dermos crédito ao Livro das Mutações (I Ching), a preocupação não é as coisas mas as situações. A pergunta seria: em que transformação esta situação se encontra? Em Aristóteles pergunta-se pela essência da coisa. A essência de um estojo seria aquilo que faz com que um estojo seja um estojo e não um gato ou uma cadeira. Seria imutável. Para o pensamento chinês, se o consigo interpretar, o estojo é apenas uma situação da matéria que está em transformação. Talvez a ciência moderna esteja muito mais próxima do I Ching do que da Física e da Metafísica de Aristóteles. Para ela, as coisas não têm uma essência, encontram-se em contínua transformação. Procura a legislação que determina essas transformações. Contudo, o desenvolvimento da ciência moderna, desde o século XVII até aos nossos dias, nunca conseguiu aniquilar por completo a nostalgia das essências aristotélicas ou das Ideias platónicas. Elas são uma sombra que paira sobre o mundo ocidental. Se eu pensar sobre a essência do estojo dos meus óculos, não me preocuparei muito com ela. Mas se pensar na essência que me faz ser aquilo que sou, sinto uma vertigem resultante do choque de poder ser apenas uma situação que está em transformação, sem que sob ela exista uma essência permanente. Serei um ser impermanente, mas que traz em si uma vocação para a permanência.

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