Hoje levantei-me cedo, fiz todas aquelas coisas que se devem fazer quando uma pessoa se levanta, tomei o pequeno-almoço e voltei para a cama. Há que reforçar o estatuto de doente. E um doente que não está na cama não é um doente. A certa altura, meço a febre e o termómetro respondeu: 36,3 ºC. Nem queria acreditar. Depois, olhei para o dispositivo e tranquilizei-me. Um termómetro digital? Que porcaria é essa? Um termómetro que saiba medir a febre está em vias de extinção, pensei. Outrora, existiam aqueles belíssimos objectos dignos do maior apreço científico. Um corpo de vidro oval ou triangular, terminado num bolbo, também ele de vidro, o reservatório onde se acumulava o mercúrio, esse metal extraordinário, líquido e prateado, e que haveria de subir ou descer em solidariedade com a temperatura do paciente. Depois, um tubo fino como um cabelo, pelo qual o mercúrio, vindo do bolbo, subia até não encontrar mais razões para continuar a escalar. Não menos importante, a escala graduada. Não há nada como uma escala para nos sentirmos, mesmo febris, em pleno campo científico. E o supremo encanto manifestava-se na hora em que um desses objectos se partia, o mercúrio saltava e deslizava em bolas que pareciam pequenas esferas de aço. Todas as coisas belas são perigosas, e o mercúrio, esse mensageiro dos estados febris, é tóxico. Foram eliminados e substituídos por estas coisas digitais, que nem uma escala têm para mostrar, apenas dígitos, como se tal fosse o suficiente para dar credibilidade às medições. Mas o que sinto mesmo falta é do mercúrio, do seu espírito conservador. Elevava-se, numa medição, aos 38,7 ºC e dali não descia, sem que um ritual de sacudidelas o obrigasse a retornar à casa da partida. Agora, vieram instar comigo para que tomasse o paracetamol, senão a febre vai voltar. Ri-me. Com um termómetro digital não há febre que chegue. Meu pobre Daniel Gabriel Farenheit, vê como não hesitaram em humilhar-te, substituindo o teu termómetro, o nosso termómetro, pela fancaria a que dão o mesmo nome.
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