Há pouco, a propósito de já não sei o quê, pensei que estávamos a 10 de Agosto. Prossegui o raciocínio, imagino que um raciocínio prático, fundado nessa convicção. Agora que escrevo, descubro que estava enganado. Afinal, estamos a nove desse mesmo mês. Qual o motivo do equívoco? Procuro bem dentro do meu espírito e só encontro um, o tédio do Verão e a nostalgia do Outono. Bem, afinal são dois motivos, embora ligados pelo sentimento. Os domingos de praia são tão soturnos como qualquer domingo numa pequena cidade de província, e em Portugal todas as cidades, mesmo as maiores, são pequenas cidades de província. Mesmo a capital que, enquanto se dá ares cosmopolitas ao encher-se de turistas estrangeiros em busca do pastel de nata, se torna mais e mais provinciana. Eu não deveria estar a lastimar-me do provincianismo pátrio. Não sou um cosmopolita, não sou um cidadão do mundo. Sou o mais provinciano dos provincianos, que nunca o deixaria de ser mesmo que tivesse nascido e vivido toda a vida na mais cosmopolita das cidades, caso exista alguma. Ser provinciano como eu o sou, não é uma questão cultural, de educação, de pertença social, o que quiserem. É uma natureza, uma questão genética. Todos os meus genes são provincianos, embora detestem os domingos nas cidades de província e nas praias para onde a província foge aos domingos de Verão. Aliás, o domingo também nasceu com genes provincianos. Só o Outono não é provinciano, embora também não seja cosmopolita. Como posso provar as últimas afirmações? Não posso, como aliás não posso provar qualquer afirmação que faça. Não sou um procurador que tenha de provar, perante meritíssimos juízes, qualquer acusação. Aliás, não passo de um narrador cansado da sua narrativa.
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