domingo, 16 de agosto de 2026

Não é fácil

Recolho-me no quarto. Fui contaminado pela contaminadora geral da família, a neta mais nova. Na ânsia da adolescência, não há vírus com que não se dê. Mal encontra um, estabelece uma cordial relação com ele, trá-lo para casa e distribui-o sem olhar a quem. Tornou-me a calhar. Não faço ideia o tipo de vírus que me atingiu, mas sinto febre, embora o termómetro marque uns miseráveis 36,5ºC. Tomo Paracetamol e já entrei na fase do antibiótico. Não saí de casa, quase não saí do quarto e a cama foi o meu poiso em parte não pequena do dia. Até pensei que ia ler, mas dormitei vezes sem conta. É um exercício doloroso este de estar doente. Não apenas por aquilo que se sofre, uns incómodos na garganta e algumas dores no corpo, mas por aquilo que se imagina que se está a sofrer. Pertenço àquela raça de seres humanos do sexo masculino que, chegando aos 37ºC, se declaram absolutamente doentes, o mundo sombreia e fazem contas à vida. Enquanto as mulheres chegam aos 39ºC  e é como se estivessem saudáveis, um homem que se preze declara-se em fase de gravidade extrema mal o termómetro passa, um décimo que seja, a mítica marca dos 37. Estou certo de que, em tempos antigos, não foram poucos os que chamaram o padre e receberam a extrema-unção. Não é fácil ser homem.

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