Passo a mão pela cara e penso que tenho de fazer a barba. Depois, esqueço esse imperativo e distraio-me com as notícias do dia, novidades que nunca são novas. Basta raspar-lhes um pouco da carapaça com que se apresentam, e logo se vê o padrão imemorial em que se inscrevem. Ao pensar nisto, ocorreu-me fabricar uma teoria, uma ciência, para sere mais preciso. A tese central é a seguinte: O mundo das notícias é composto por um número definido e finito de padrões, existentes a priori. Cada notícia inscreve-se num desses padrões, uma espécie de actualização empírica. Daqui decorre que é impossível haver em qualquer notícia algo de absolutamente novo, nem mesmo de um pouco ou quase nada de novo. Uma antiga intuição desta teoria encontra-se no Eclesiastes, capítulo 1, versículo 9: O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol. Contudo, isto é uma mera intuição, uma suspeita ainda não elevada à dimensão da Ciência. É esta a minha tarefa no dia que corre. Elevar à cientificidade aquilo que foi intuído como sabedoria popular. Existe, porém, um problema. Os padrões existem a priori, contudo nós não os conhecemos desse modo, não basta consultar a razão pura para os descobrir. Há que investigar naquilo que se noticia o padrão imutável a que obedece. É por isso que estamos no domínio da ciência e não da filosofia. Perguntar-se-á a razão que levou este narrador a descobrir tão importante campo epistemológico no dia de hoje, 3 de Agosto. Uma razão meteorológica. Ia sair, mas estava a chover – estou a dizer a verdade. Como não tinha nada para fazer, pus-me a criar uma ciência para ajudar a humanidade a não abrir a boca de espanto perante acontecimentos que surgem como novidades. Não, eles não são mais do que a repetição de padrões eternos. Também podia ter feito a barba, talvez fosse esteticamente mais relevante, mas perderia uma oportunidade para dar mais um contributo benevolente e pro bono para o conhecimento e, como consequência, para o desenvolvimento da espécie a que me fizeram pertencer.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.