Foi numa obra do antropólogo Edmund Leach, Cultura e Comunicação, que encontrei a seguinte ideia: Uma frase (musical), um movimento e a sinfonia no seu conjunto constituem para o ouvinte sensível, um sistema de unidades interligadas. Pode demorar uma hora a execução completa, mas a mensagem é veiculada como se tudo tivesse ocorrido em simultaneidade. Parece haver uma tensão entre a processualidade objectiva e a simultaneidade semântica subjectiva. Vou tentar mergulhar neste mar tenebroso dos conceitos. O pior que pode acontecer é afogar-me. Os processos que produzem coisas, entre estas, o próprio sentido, são temporais. A sinfonia, desde a primeira frase do primeiro movimento até à sua conclusão pode demorar mais de uma hora. Estrutura-se no tempo. Assim que soa o primeiro acorde, está instalado um passado, um presente e um futuro. Ora, este esforço na duração visa, como diz Leach, a simultaneidade. Esta é uma espécie de aniquilação, por homogeneização, do tempo. Dito de outra maneira, somos seres temporais, mas há em nós uma inclinação para a sua abolição. Seja nesta ideia de simultaneidade, seja na ideia de eternidade, seja na de imortalidade. Nunca nos conformamos com o simples facto de sermos seres temporais, embora a possibilidade de nos afogarmos, nem que seja num mar de conceitos, seja a prova dessa nossa temporalidade.
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