O tempo, por aqui, ainda não recuperou do trauma do eclipse. Mantém-se cinzento, sombrio, carregado de maus pensamentos e de dores que dificilmente esconde. Para os homens, os eclipses são actualmente apenas fenómenos astronómicos, um evento calculável pelas regras da física. Não o temem, fazendo dele aquilo que fizeram da sua vida: um grande espectáculo. Contudo, os elementos, entre eles o clima, são fiéis às antigas tradições e agem em conformidade com elas. O que haverá de mais perturbador do que essa experiência de o Sol, a fonte de vida, poder ser apagado, nem que seja por instantes, pela Lua? Quem sabe se esse apagamento momentâneo não é o sinal do que há-de vir? Enquanto os homens contabilizam o prazer do acontecimento, esses velhos elementos sofrem ainda com aquilo que aconteceu e que, de um momento para o outro, se pode tornar eterno. Está uma tarde crepuscular.
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