sábado, 8 de agosto de 2026

Abdico, não abdico

Acordei estremunhado. Sim, deitei-me depois de almoço, para evitar adormecer sentado e acordar com uma má-disposição insuportável. Deito-me e leio um pouco, pensei. Logo me levanto e economizo o tempo de uma sesta com uma leitura. O pior é que o corpo não me obedece. Ordeno-lhe uma coisa, ele, de imediato, faz outra. Não li uma linha, mas tive direito a uma sessão de sonhos, imagino que extraordinários, pois o estremunhamento que me atingiu deve ter vindo de algum lado. Inocenta-me neste processo, mais uma vez, a autonomia do corpo em relação à vontade. Não lhe ordenei que sonhasse, mas ele, talvez com saudades de ir ao cinema, decidiu oferecer-se uma sessão gratuita. Devia ir fazer uma caminhada, mas está um calor pegajoso, que nem o meu corpo nem eu estimamos. É triste chegar a esta idade e constatar que nada nem ninguém me obedece. Talvez seja essa a razão por que há pessoas que, chegadas a onde cheguei, adquirem um cão de companhia. Têm esperança de que ele lhes obedeça. Depois vêm para a rua passear o animal e dar-lhe ordens, só para manterem um imaginado estatuto social de autoridade. Nunca acontecerá comigo. Prefiro ser como um rei que abdica. Entrego o trono, outro que dê ordens no meu lugar. Duvido, porém, que esta seja uma boa ideia. Se entregar o comando ao meu corpo, não sei se ele será suficientemente astuto para não me pôr a fazer figuras tristes. Tenho de pensar mais demoradamente no assunto da abdicação. Sobre o clima, já desisti de lhe dar ordens. Também não me ajoelho para lhe fazer orações peticionárias, nem, em contrapartida, uma acção de graças. Sofro o que ele me enviar. Devo, agora que penso no assunto, preservar, por mais algum tempo, a ilusão de que ainda posso comandar o meu corpo. A vida seria impossível sem ilusões e fantasias.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.