quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Omnividência

No quarto poema do ciclo Sete Pinheiros, do livro Velas de Ignição, de Durs Grünbein, o quarto e último verso da primeira estrofe fez-me pensar na vida privada. A estrofe conta-nos o seguinte: Formigas vacilam no bordo do caminho, / Exércitos de operárias, carregam com esforço / As suas agulhas de pinheiro. / Não há vida privada no seu mundo. Tudo o que se passa nele está exposto à publicidade. Ora, e no mundo dos homens? Por um momento na história da humanidade pensou-se que a vida privada não apenas tinha sido descoberta como teria um valor quase absoluto. Essa preeminência do privado foi, porém, sol de pouca dura. A espécie humana, com a ajuda das redes sociais e do controlo algorítmico, emancipou-se do privado, entregando-se alegre à exposição pública. Talvez neste mundo, e quem sabe se em qualquer outro, não haja lugar para a vida privada. É plausível pensar que a ideia venha da religião. Para Deus, nenhum acto humano é privado, pois Ele tudo vê, tudo sabe. Para Ele tudo é público. Quando os homens de algum modo pretendem substituir Deus, a última característica divina que alienariam seria esse omnividência da vida de qualquer um. A vida privada, na religião antropocêntrica em que se vive, é o maior dos pecados, o verdadeiro pecado contra o espírito, aquele que não será perdoável.

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