quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Amor e grafia

Comecemos uma história de amor de uma inusitada forma: tachibana no / kagoto gamashiki / awase kana. Isto não é nenhuma língua inventada por este narrador desocupado, mas a transcrição em Rōmaji (no alfabeto latino) de um haiku japonês, de Yosa Buson. A tradução em português, de Joaquim M. Palma, é a seguinte: a túnica de linho / traz com ela / a história de um velho amor. A tradução do poema é acompanhada por uma nota do poeta: Alguém me enviou uma túnica com um recado no seu interior escrito por uma mulher que amei há muitos anos. Um ocidental interessar-se-á menos pelo registo de uma emoção do que pelo conteúdo do recado. O que escreveu aquela mulher que foi amada há muitos anos pelo poeta? A verdade do acontecimento parece fora do haiku, ela está oculta. O fundamental é desocultá-la. Ora, o poema apenas a insinua, e essa insinuação ainda é uma forma de a esconder. Talvez o poeta tenha sentido isso mesmo, quando decidiu deixar uma nota junto ao poema. A túnica traz a história de um velho amor, e o recado escrito pela mulher, que diz ele? Pedi a um Modelo de Linguagem que transcrevesse o texto para caracteres japoneses. O que recebi de volta foi isto: 橘のかごとがましき袷かな.Não sei se está correcto ou não. Sei apenas que é uma caligrafia belíssima. Quem quer saber da verdade, se pode escrever assim?

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