terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vida quotidiana

O almoço, um peixe grelhado, acabou por se tornar pesado, vá lá saber-se a razão. O mundo e a vida das pessoas que estão no mundo é um mistério. Aquilo que parece ser uma coisa, olhado de perto mostra-se  ser outra e, caso se insista na redução da distância, ainda se há-de mostrar como uma outra. É uma questão de ponto de vista, de perspectiva de onde se olha. Franzo as sobrancelhas perante a ideia. Não bebi o suficiente ao almoço para me tornar um relativista, cogito com os meus botões. Foram todos para a praia, só eu fiquei preso na solidão, como se vivesse numa torre de marfim. Aqui, porém, não há torres e o marfim tornou-se mercadoria proibida, o que me parece da mais elementar justiça. Queria falar de coisas importantes. Por exemplo, comecei o dia, após o pequeno-almoço, com uma caminhada. A névoa protegeu-me do sol. Depois, cortei o cabelo e a fiz a barba. Pareço um militar. Olhei para o espelho e gostei do que vi. Disse-me: pareces um monge-guerreiro. Fiquei a contemplar a metamorfose, mas não cheguei a nenhuma conclusão metafísica. Disseram-me: é assim que gosto de te ver, mas isto foi apenas um juízo de gosto. Também sobre isso não exarei qualquer sentença. A vida quotidiana é um exercício difícil. Depois de me tornar em monge-guerreiro, fui tomar café e comer uma bola-de-berlim. Sem creme, note-se. Ainda tive medo de que no café me dissessem: templários estão proibidos de entrar neste estabelecimento. Ninguém notou que eu me tinha transformado em monge-guerreiro. A verdade é que eu ia disfarçado. Tinha um panamá – autêntico, note-se – e julgaram que era um turista. Olharam para nós, ia acompanhado pela avó dos meus netos, e em vez de me dizerem que membros das ordens militares não podiam entrar, mesmo acompanhados por senhoras, começaram a falar em inglês. Há duas coisas que me aborrecem neste mundo. Em primeiro lugar, que quando me pareço com um templário, ninguém o reconheça. Depois, acharem que não sou português. Irrita-me. Não fora a gula, objectivada no desejo da bola-de-berlim, e tinha voltado costas. Assim, sentei-me e esperei. O que me intriga, todavia, é a razão de um peixe grelhado se ter tornado uma refeição pesada. Não devia escrever no rescaldo de uma refeição que se tornou pesada. O Verão avança. Mas o Outono, o doce Outono, ainda vem longe.

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