terça-feira, 11 de agosto de 2026

Preguiça

Uma pilha de livros acumula-se em cima de uma mesa que, por estes dias, faz de secretária. A explicação para o acumular é simples: preguiça. Esta parece ser um vício terrível, um pecado capital. Um pecado é capital se for a cabeça (de caput, em latim) de um corpo composto por outros pecados, uma infinidade deles, tantos como os órgãos de um corpo, ou mesmo tantos quanto as células que o compõem. Temos assim, no campo da pecaminosidade, apenas sete cabeças, o que significa que o poderoso exército que arrasta o pobre homem de queda em queda é composto por apenas sete militares, intrépidos, sempre actuantes. Observo aquele que agora me acomete, impedindo-me de arrumar os livros que amontoei, e não consigo perceber como é que a preguiça é a cabeça de coisa alguma, quanto mais de um corpo pecaminoso. A verdade é que, originalmente, esse pecado não era a preguiça, mas a acédia, uma indiferença espiritual, uma melancolia metafísica. Isso sim, um verdadeiro pecado em forma de cabeça. Talvez isso fosse difícil de explicar ao corpo dos fiéis e, lentamente, para facilitar a compreensão, o pecado foi ele mesmo caindo de estatuto, até chegar a essa coisa mole e viscosa que é a preguiça. Tenho também uma explicação mais social e política. Com o desenvolvimento do capitalismo na era moderna, o trabalho, que sempre tivera má imprensa, passou a ser uma virtude que os indivíduos deviam ostentar. O problema eram os preguiçosos. Para os pôr na ordem, eliminou-se a acédia, assunto de monges do deserto e de intelectuais de mosteiro, e decretou-se a preguiça como coisa que podia levar a alma a arder por toda a eternidade. Quando sofro de preguiça, a única coisa que me apetece é ser preguiçoso, abrir a boca e bocejar, sentar-me sem a menor intenção de mexer uma palha. Não me sinto tentado a nada, nem a cometer pecados veniais. Talvez fosse boa ideia repor as coisas no devido lugar, até porque um preguiçoso não é agente da sua preguiça. Ele sofre-a, não a produz. Chega por hoje. A preguiça impede-me de escrever. Acho que vou sair e beber uma cerveja num bar de praia.

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