sábado, 15 de agosto de 2026

Palavras

Sim, disse ela / e aquele sim como que se afundou dentro de mim, sim, foi quase como se eu tivesse engolido a palavra e ela se me tivesse cravado no estômago. Nada disto me pertence. Foi Jon Fosse que o escreveu em Vaim. Então, o que faz isso neste local? Haverá muitas razões. Umas plausíveis, outras nem por isso. Talvez a mais óbvia seja uma razão de gosto. Gostei do excerto e decidi, em modo de citação, apropriar-me dele. Contudo, pensando bem, nem gosto assim tanto daquelas frases. Há outras de gosto mais, muitas outras, para ser claro. Gostei, porém, de três imagens que dançam naquele texto. Palavras a afundar-se dentro de mim, engolir palavras, palavras cravadas no estômago. Assim, posso pensar nas minhas palavras a afundar-se dentro de mim, como pequenos veleiros a afundarem-se no oceano. Se essas palavras se combinam num texto, então são como grandes transatlânticos a soçobrar num mar agitado e frio. A outras palavras, eu engulo-as, como se fossem pílulas para a insónia. Durante a noite, perante a resistência do sono em tornar-se presente, levanto-me, tomo uma mão-cheia de palavras e engulo-as. Depois, adormeço e acordo estremunhado. Outras palavras, as mais perigosas e as mais dignas de estima, são punhais. Cravam-se-me no estômago e dilaceram-me. São palavras trágicas e permitem-me fingir que a vida é uma tragédia, embora a vida seja apenas vida, e as palavras sejam apenas palavras. Já eu não sei o que sou, mas conheço um bom número de palavras que rasgariam o mundo ao meio, sem que alguém o pudesse cerzir. São palavras terríveis. Guardo-as dentro da caixa e ofereço-as a Pandora.

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