quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Atribuir estrelas

Há muito, embora já não me lembre quando e em que publicação, instituiu-se um hábito, que se tornou, como acontece com todos os hábitos enraizados, uma segunda natureza. Refiro-me à crítica literária e cinematográfica. Os críticos não se limitam a escrever sobre a obra em causa, como lhe dão uma classificação, através de um sistema de estrelas. De uma a cinco estrelas, embora já tenha visto filmes classificados com uma bola negra, que significa Mau. Há nesta prática uma infantilização que é absurda. Os críticos submetem obras a um sistema de avaliação decalcado do ensino básico, como se essas obras fossem o desempenho de alunos em busca de uma certificação académica, e eles, os críticos, examinadores com uma certificação superior aos examinados. Isto é absurdo e engana os leitores. A autoridade dos críticos é secreta, não se funda em nada que posso ser objectivamente reconhecido. Talvez gostassem de ser professores – um sonho de infância – para submeter os alunos ao jogo do castigo – porta-te bem ou levas uma estrela ou mesmo uma bola – e da recompensa – foste ao meu encontro, pensas como eu, levas cinco estrelas (expressão que me faz sempre lembrar as garrafas de vinho de um litro que antigamente existiam, e que continham uma bebida que estava longe de ser sequer suficiente). A infantilização encontra-se ainda num outro ponto. Qualquer ciência passa por diversas fases e, por analogia aos seres vivos, tem uma fase infantil. Em muitos casos, essa fase é de natureza classificatória, taxionómica. Distribui-se a realidade por classes, segundo certas características. Ao colocar obras de literatura ou de cinema sob classes identificadas pelo número de estrelas, o que se está a fazer é uma taxionomia. Mas é uma taxionomia secreta. Ninguém sabe quais são as características que permitem colocar uma obra em qualquer uma das classes. Isto é o grau zero do pensamento. Mais valia que as obras vítimas da atribuição de estrelas fossem classificadas por sorteio. Não seria mais injusto.

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