Simone Weil, segundo Georges Steiner, seria, entre os grandes espíritos femininos, aquele que é mais evidentemente filosófico, o que está familiarizado com a abstracção especulativa. Ora, nisto reside um equívoco. Nem a especulação, nem a abstracção, nem, tão pouco, a síntese das duas são suficientes para produzir um espírito filosófico. Eu posso especular sobre abstracções como o livre-arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a sociedade justa, sem que em momento algum me eleve à filosofia. Considere-se o seguinte aforismo: “Deus é a totalidade presente sob a forma de uma alteridade ausente.” É um proposição abstracta e especulativa, mas estamos longe de estar perante um exercício filosófico. Para tal, seria necessário que se desenvolvesse uma argumentação para fundamentar e tentar provar a verdade da afirmação, coisa que não se faz. A filosofia não é um exercício literário ou uma colecção de máximas e aforismos, por interessantes, abstractos e especulativos que sejam. É no Fédon que Platão faz dizer a Sócrates que os poetas compõem ficções, os filósofos, argumentos. Isto não significa que máximas e aforismos não sejam interessantes e merecedores de meditação. Significa, antes, que a filosofia é um espírito mais humilde, um espírito que se obriga a dar razões que justifiquem as afirmações que propõe, e que o faz de forma que outros as possam avaliar. A proposição referida acima, apesar de abstracta e especulativa, tem a forma de uma afirmação dogmática, na qual se crê ou não, mas está longe de ser filosófica.
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