terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma patologia desconhecida

Pode-se pensar no assunto em analogia com uma prescrição médica. Imaginemos que se vai ao médico e ele receita, durante três ou quatro semanas, a toma diária de um medicamento. É o que me acontece agora com o Mundial de Futebol. Vejo um jogo por dia. E, como deve acontecer com a medicação, se falho um dia, não vejo dois no outro. O problema, e há sempre um problema que espera por nós ao virar da esquina, é que a analogia ainda contém uma outra coisa. Enunciemo-la em forma de pergunta: Se tomo um medicamento diariamente para resolver uma situação patológica, qual será a patologia que pretendo curar ao ver um jogo de futebol diário? Quando enunciei, pela primeira vez, esta interrogação, pensei em várias possibilidades. Nenhuma, porém, me pareceu ser tratável com jogos de futebol. Um leitor precipitado dirá: não é possível que jogos de futebol tratem doenças, nem do foro psiquiátrico. Isto, porém, é apenas uma presunção. A minha resposta – provisória e falsificável como todas as afirmações científicas – é a seguinte: se os jogos de futebol são fármacos, então é necessário que exista pelo menos uma doença  a que essa medicação seja aplicada. O facto de não a conhecermos, não significa que não exista. Talvez esta proposição não seja muito falsificável. Aqui joga-se um drama epistemológico entre a falsificabilidade e a falácia dita argumentum ad ignorantiam. Mas não vou contar a história desse drama, pois é tão maçadora quanto a forma de Portugal jogar.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Heteropessimismo

Ouvi hoje pela primeira vez o termo heteropessimismo. Não é novo, terá surgido em 2019, mas sou lento na actualização. Descobri, com este episódio, de que estou sete anos atrasado. Sou uma pessoa serôdia, digo para mim mesmo. Em linguagem do campo, há as colheitas temporãs e as serôdias. Eu sou do tardio, nada de precocidades. Pelo contrário. Voltemos ao heteropessimismo. É um sentimento essencialmente feminino. Não sem razão. Mulheres sentem que evoluíram social e emocionalmente de forma muito mais rápida do que a maioria dos homens. Quando descobri o novo termo que me ilumina neste texto, alguém diz que as mulheres vivem nos dias de hoje e os homens estão no século passado, nos anos 80. Discordei, claro. Muitos homens vivem no século XIX e, no fundo, têm uma visão das mulheres não muito diferente dos talibans. Isto é um drama para as mulheres. Não encontram um parceiro à sua altura, com quem possam compartilhar a vida. Por muito estranho que possa parecer, o principal problema político dos dias de hoje é o estatuto da mulher. É este estatuto que leva os homens a escolherem o primeiro idiota que lhes aparece pela frente com um discurso de apologia de putativas virtudes másculas. No fundo, o que se deseja é reduzir as mulheres à dimensão dos homens: crianças grandes, que julgam que a vida é uma adolescência eterna. Não devia escrever sobre estas coisas. Sou um mero narrador cujo autor lhe proíbe os assuntos políticos. Contudo, o que me mobilizou não foi a política mas a descoberta de uma palavra nova. Aumentar o vocabulário é aumentar o mundo onde se vive.

domingo, 21 de junho de 2026

Sem tragédia nem farsa

Na praceta aqui em baixo, um bando de crianças joga às escondidas. Sei que esse é o jogo porque oiço contar. Também quando era criança o jogo das escondidas tinha essas contagens. Aquele que ficava de descobrir os outros tapava os olhos e entregava-se a uma contagem, antes de lhe ser permitido procurar os companheiros de jogo, que, entretanto, se tinham escondido. Parece-me haver uma ligeira mudança. As contagens no meu tempo eram menos generosas. Há pouco, ouvi contar até sessenta. Parecia uma eternidade. Não me lembro até quanto se contava naqueles dias. Também não me lembro se havia uma regra fixa para a contagem. Há uma hipótese. Com a passagem dos anos, há uma dilatação do tempo concedido a quem se esconde. Se for assim, daqui a trinta ou quarenta anos, contar-se-á até cem e só depois se parte em busca dos colegas escondidos. Contudo, o que me espanta é haver gente, a esta hora, na rua entregue a estas actividades. O calor por aqui ainda é abrasador, apesar de já existirem sombras generosas. É provável que há sessenta anos também eu não sentisse calor, enquanto me escondia ou contava. Isso levou-me a uma célebre frase de Marx enxertada numa outra célebre frase de Hegel: Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da história universal surgem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Estas frases são interessantes por aquilo que não dizem: os pequenos acontecimentos e as pequenas personagens que não ficam na história podem ocorrer repetidamente, pois não são tragédia que se replica como farsa. Eu joguei às escondidas repetindo o jogo de muitas gerações anteriores a mim. Aquelas crianças, passadas décadas continuam a repetir o jogo. Sem tragédia nem farsa, porque na repetição de geração em geração o que acontece é uma fuga à história e um mergulho num ritual cíclico que retornará eternamente na pureza da sua candura.

sábado, 20 de junho de 2026

Da insónia e do caos

Último dia de Primavera. Entrei nele ensonado, pois dormi mal. Talvez por isso, só agora descubro a efeméride. O que podemos pensar dela?  A Primavera de 2026 vai desaparecer amanhã e nunca mais voltará. Virá outra no seu lugar, mas não será a mesma nem a mesma coisa.  Nestes dias, que são a maioria, em que acordo de uma noite mal  dormida, sinto uma inclinação, mais acentuada do que nos outros, para ter meditações desprovidas de sentido e de bom senso. Sou uma excepção à constatação  de Descartes de que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois não há ninguém que queira ter mais do que aquilo que tem. Eu, pelo contrário, gostava de ter mais bom senso, muito mais.  Ora o que acontece nos dias como o de hoje?  Penso em coisas disparatadas. Por exemplo, que não existe Primavera, nem tempo, nem espaço. São uma projecção da mente dos seres humanos. Kant disse qualquer coisa do género: são formas puras da sensibilidade, isto é, são o modo como organizamos a experiência.  Kant não me interessa, pois ele diz de outra maneira aquilo que os mitos diziam: trata-se de uma cosmogonia, a passagem do caos para um cosmos, um mundo organizado. Seríamos os criadores desses cosmos. Pequenos deuses. Contudo, não partilho do optimismo do filósofo de Konigsberg. O caos é onde habito. Espaço e tempo esqueceram-se de mim e a minha sensibilidade não tem qualquer estrutura. Nem sei por que razão falo da Primavera que acaba, se ela é coisa que não existe. Bom seria dormir melhor a próxima noite.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Monomania

Talvez se esteja a passar alguma coisa comigo que seja sintoma de alguma patologia mental. Vi, de seguida, cerca de três dúzias de filmes de Ingmar Bergman. De seguida não significa começar a ver um após acabar outro. Talvez tenha visto um por dia, com um ou outro intervalo. Agora, acabei de ler o quarto romance seguido de Vergílio Ferreira. Será que sofro de monomania. Talvez, embora seja uma monomania restrita. A fixação no objecto não é muito prolongada. Talvez seja uma monomania saltitante, passando de um objecto para outro. O que me vale é que a persistência não é muito grande, caso o desejo não colabore. No caso de Bergman, houve uma franca colaboração, o desejo de ver o próximo filme era grande. Já no caso de Vergílio Ferreira, o desejo foi diminuindo, de tal modo que, antes de passar para o quinto romance, pus-me a ler um de Emmanuel Carrère e não sei se não vou continuar a ler as obras deste autor. A ideia de monomania, segundo fui ver, surgiu no início do século XIX como a designação de uma insanidade parcial, uma obsessão psicológica isolada numa mente que, em todo o resto, era normal. É esta última proposição que me leva desconfiar do meu diagnóstico. Ver de seguida três dúzias de filmes do Bergman pode ser uma obsessão psicológica, mas nada prova que a minha mente seja, em todo o resto, normal. Não vou, porém, julgar em causa própria. O mais decepcionante desta história é que a medicina e a psiquiatria abandonaram o conceito de monomania. Este desceu do altar da saúde e da patologia para designar um hobby praticado de modo intenso. A minha equação, perante este panorama lexical e conceptual, é a seguinte: caso a monomania signifique uma patologia, aceito que ver três dúzias de filmes do Bergman é um sintoma doentio. Se for apenas um hobby, declaro que não sou monomaníaco. Não tenho hobbies, não quero vir a ter e não me dou com ninguém que os tenha. Agora, tenho de contar os romances que o Emmanuel Carrère escreveu até hoje, talvez os leia todos de seguida.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A vulgaridade da verdade

Está calor. Não é uma frase extraordinária, mas é verdadeira. Talvez exista um conflito entre frases verdadeiras e frases extraordinárias. As verdadeiras expressam-se de modo vulgar, ordinário. As outras, apesar de saírem da vulgaridade e da ordem, são falsas. Será a falsidade que as faz extraordinárias. Assim, quanto mais invulgar for uma frase, mais devemos desconfiar dela. Vejamos a seguinte frase: água é um líquido incolor e transparente, insípido e inodoro, composto de hidrogénio e oxigénio, de fórmula química H2O. Obrigado, dicionário da Porto Editora. Eis uma definição vulgar e, por isso verdadeira. Mais do que isso. Ela tem no seu núcleo aquilo que é essencial a uma frase vulgar e, por isso, verdadeira: ser incolor, transparente, inodora e, acima de tudo, insípida. Fico por aqui, pois esta é um contribuição decisiva, note-se, para o problema filosófico da verdade. Esqueçamos as teorias da verdade como correspondência, da verdade como coerência, da verdade como utilidade prática, da verdade como desocultação, da verdade como consenso, e outras que a falta de fôlego mo obriga a omitir. É verdade toda a afirmação ou proposição vulgar. A vulgaridade é o critério epistémico (que palavra horrível) decisivo. O calor afecta o humor e o raciocínio de qualquer ser humano. Eis uma verdade.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Portugal, um grande jogo

Uma grande partida de futebol. Sim, estou a referir-me ao Portugal – Congo. No entanto, percebi a existência de alguma dissonância sobre os objectivos do jogo. Por exemplo, o Congo parecia convencido de que o objectivo do futebol é colocar a bola dentro da baliza adversária. Por certo, um equívoco. Portugal, pelo contrário, apresentou um jogo moderno, supereficiente e altamente rentável. Enquanto os congoleses têm uma visão arcaica, quase medieval do futebol, os portugueses têm uma visão moderna, defensora da economia de mercado, onde a propriedade privada, e não a honra de meter golos, é o objectivo. Assim, 75% de posse de bola foi portuguesa. Este é o objectivo numa economia moderna de mercado, a posse. Depois, enquanto os congoleses pareciam desesperados para se desfazer da bola, os portugueses jogavam com ela. Para o lado, para trás, outra vez para o lado, outra vez para trás. Estes passes dos portugueses são análogos a pôr dinheiro num banco para o ver crescer, acumulando juros, embora esta analogia esteja um bocado ultrapassada, pois os bancos deixaram de pagar juros e cobram taxas. Mas podemos imaginar bancos antigos, dos sérios. Portanto, como os antigos investidores depositavam dinheiro para ele crescer, os portugueses jogavam para o lado e para trás para crescer a sua propriedade. E conseguiram. Coitados dos congoleses, com uma quota de 25% na posse de bola nem têm capacidade para numa assembleia geral de sócios fazer vingar qualquer proposta. Isto é o que acontece a quem acha que o futebol é para marcar golos. A continuar assim, Portugal acabará como proprietário de todas as bolas do Mundial.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Um cromo da bola

Numa prateleira da estante tenho um cromo da bola – do campeonato nacional, não do mundial – que o meu neto me deu. Insistiu que ficasse com ele. Fiquei e pu-lo em exposição. Os netos têm grande poder sobre os avós, mais do que eles sonham. Não faço ideia quem é o jogador, embora saiba quem é o clube, o Estoril Praia. Os jogadores de futebol que melhor conheço já deixaram de jogar há mais de 40 anos. O cromo está num lugar onde avisto Os Lusíadas, de Camões, e o Ofício Cantante, de Herberto Helder, uma das várias edições da sua poesia completa. Certamente, Camões não se interessava pelo futebol, e quanto ao poeta madeirense não faço ideia se ele tinha qualquer interesse pelo jogo. Também avisto por lá a Louise Glück, a Wisława Szymborska e o T. S. Eliot. Ao escrever isto, decido ver, no Google, fotos da Louise e da Wisława. Senti-me mais perto da polaca. Também estou mais perto da poesia dela do que da americana. Ambas ganharam o Nobel, mas a Wisława viveu mais 10 anos do que a Louise. Pode-se perguntar por que razão se está a falar – isto é, a escrever – sobre estas banalidades, coisas que não interessam a ninguém. A razão é simples: sou um coleccionador de banalidades. Por isso, a companhia que dou aos livros de grandes poetas é a mais adequada. Um cromo da bola de um jogador que não conheço, de um clube pouco relevante, apesar de estimável.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cabo Verde

Acabei de ver o jogo de futebol. Como a maior parte dos portugueses, estive do lado de Cabo Verde e contra Espanha. Esta posição, porém, tem raízes históricas e raízes morais. As morais dizem respeito à propensão que sentimos para, num combate profundamente desigual, tomar partido pelo mais fraco. E Cabo Verde é infinitamente mais fraco do que Espanha. As raízes históricas também são óbvias. Cabo Verde é uma espécie de filho de Portugal, enquanto a Espanha é o nosso inimigo histórico, mesmo que nos digamos irmãos, ou talvez por isso. Os conflitos entre irmãos são dos piores. Uma derrota de Espanha – empatar com Cabo Verde é uma derrota – é sentida quase como uma vitória de Portugal. Não se pense, porém, que este narrador odeia Espanha. Pelo contrário, gosta imenso de Espanha, das cidades espanholas e da forma como vivem os espanhóis; mas nem por um instante queria estar sob o jugo de Castela. O jogo, claro, não foi grande coisa, mas passei duas horas bem passadas, a ver o pequeno David domesticar o grande Golias. Foi muito mais interessante do que ver a Alemanha esmagar o minúsculo Curaçau, uma violência indecente. Esperemos, porém, que não acontece a Portugal, no jogo com o Congo, o mesmo, ou pior, do que aconteceu a Espanha.

domingo, 14 de junho de 2026

Dedicatórias

Ao oferecer um livro, coisa que deve ter caído em desuso, ninguém deveria escrever nele uma dedicatória. O livro que tenho diante de mim, acabado de escrever no dia em que fiz seis anos, tem uma dedicatória. Não consigo perceber a assinatura – melhor, só percebo o apelido – mas, pela letra, parece de autoria de uma mulher. Reza assim: Que a tua vida seja sempre banhada de Sol e que nunca a neve derreta. O desejo expresso não foi suficiente para reter o livro no proprietário ou nos seus descendentes. Acabou num alfarrabista, onde o comprei. A dedicatória não será amorosa. Talvez a de uma tia para um sobrinho. Talvez de uma madrinha para um afilhado. Talvez de uma amiga para um amigo. O facto de apresentar o presentado com alguém do sexo masculino é uma presunção sem qualquer fundamento. Voltando ao princípio. Uma dedicatória exprime uma vida interior a que só o que recebe a oferta deveria ter acesso. Quando um livro é vendido a um alfarrabista, a dedicatória entra no espaço público e fica à mercê de qualquer voyeur que pegue na obra e decida ler aquilo que não foi dirigido a si. Eu, por exemplo, não resisto a este tipo de literatura. Tenho mesmo livros em que as dedicatórias são mais interessantes do que a própria obra. Não devia lê-las, mas leio sempre e, se esses velhos livros não trazem dedicatórias, o que acontece a maior parte das vezes, fico decepcionado. Cada um tem os pecados que tem.

sábado, 13 de junho de 2026

Entusiasmo

Um sábado de Junho como se estivéssemos no pino do Verão. Trinta e nove graus. Recolho-me em casa. Dia propício para o desporto de sofá. Mundial de futebol e as 24 horas de Le Mans. Se fosse adolescente, poderia ser prometedor. O entusiasmo das corridas de automóveis e dos jogos de futebol. Há bocado, vi a partida e as primeiras voltas de uma das mais míticas corridas de automóveis. Fiquei a olhar perplexo. Não pelo que estava a acontecer na pista, mas com o meu antigo entusiasmo. Queria encontrá-lo, mas nada vi de entusiasmante. Esta experiência também me acontece com o futebol. Depois de bocejar, pensei que estas competições nada têm de interessante. Era eu, na verdura dos anos, que projectava nelas o meu entusiasmo. Talvez lhe quisesse encontrar um objecto para desculpar esse estado patológico. No mundo, penso agora, nada há de entusiasmante, mas nós, seres humanos, nascemos com uma dose de entusiasmo – uns mais, outros menos – e aplicamo-nos a justificá-lo, dando-lhe focos de interesse. Depois, há alguns que curam a doença, outros que vão trocando o objecto a que aplicam a dose de entusiasmo com que vieram ao mundo e outros, talvez os mais felizes, mantêm-se fiéis ao objecto inicial. Se não estivesse curado, teria muito para ver neste sábado de Junho, dia revestido com os calores vindos do inferno.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Manivelas e manípulos

Por vezes, sinto necessidade de mudar de cadeira do escritório. Faço-o quando ela começa a ser incapaz de me poupar as costas. Por norma duram muitos anos. A que tenho terá uns quatro anos. Não sei bem. Talvez, na altura da compra, me tenham explicado o funcionamento de todas aquelas manivelas e manípulos com que essas cadeiras, mesmo por baixo do assento, são decoradas. Ela veio para casa já afinada à minha posição e tem cumprido, com esmero, a sua função. Se me doem as costas, a culpa não é dela. Contudo, havia uma sombra. Por mais que mexesse nas  manivelas e manípulos, as costas da cadeira eram inamovíveis. Sonhava, por vezes, recliná-la para dormir uma sesta. Nada. Pensava: sou estúpido. Ou comprei uma cadeira que não mexe as costas, ou não consigo desvendar o modo como isso se faz. Ainda por cima, com larga experiência em cadeiras que não recusaram, em momento algum, inclinar-se. Tinha desistido. Hoje porém, inadvertidamente, mexo num manípulo. Deslizou. Fiquei curioso. Procuro rodá-lo. Consigo e, milagre, as costas da cadeira cedem, e eu reclino-me como se fosse dormir. Claro que não fui. Decidi escrever este texto. Não interessa a ninguém, mas assinala o momento em que descubro como posso dormitar com mais comodidade à secretária. As minhas relações com a cadeira eram tensas, mas apaziguaram-se, apesar de ela ter sussurrado qualquer coisa sobre a minha estupidez. Que burro, terá dito. Perdoo-lhe, desde que continue a reclinar-se. É preciso estar focado no que interessa.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Buracos no tempo

Quando saí, hoje de manhã, não havia gente pelas ruas. Aproveitaram o feriado para se esconderem, para se retirarem da praça pública. Talvez seja para isso que servem os feriados. São esconderijos no tempo. Abrem buracos na teia do calendário e as pessoas, caso tenham siso, aproveitam-nos. Já ninguém – isto será uma generalização precipitada – distingue os feriados religiosos e o cívicos. Olham para eles como buracos do tempo e ficam gratos. As pessoas cansam-se de exibir o rosto aos outros, de lhes mostrar o corpo e de ter de gastar palavras. Benditos feriados. Contudo, este é um equívoco. O dia de Portugal devia ser o 5 de Outubro. Foi a 5 de Outubro que começou a Monarquia portuguesa, foi a 5 de Outubro que começou a República portuguesa. Dito de outra maneira: foi a 5 de Outubro que Portugal começou e foi a 5 de Outubro que Portugal recomeçou com outra cara. Talvez já tenha escrito isto. Desde 2017 e ao fim de 2560 entradas, é possível que não pare de me repetir. Se o fiz, ninguém quis saber e pôs fim a essa irracionalidade de um país nascer numa data e ter o seu dia noutra. Nem acabava com o 10 de Junho. Era dia de Camões e da Língua Portuguesa. Contudo, os agentes políticos desconfiam dos portugueses, têm medo de que se revoltem por haver um dia dedicado apenas a um escritor e à língua que ele inventou. Em resumo, estou a ficar um velho rabugento, a protestar com coisas que ninguém quer saber, nem eu, nem Camões, nem Portugal, nem a Língua Portuguesa, coitada, martirizada pelo Acordo Ortográfico de 1990, que a rebaixou de tal modo que ela perdeu o ânimo e nem protesta. Mas devia.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Amores fáceis

Por norma, não sou um consumidor do tipo de ficção escrita pelo norte-americano H. P. Lovecraft. Descobri, no entanto, uma frase sua que não teria horror em fazer minha: Tudo o que amei está morto há dois séculos. Encontrei-a numa revista, cujo nome e natureza omito. Para acertar o passo com o escritor teria de escrever: Tudo o que amei está morto há três séculos. A frase não seria verdadeira, claro, mas teria impacto num eventual leitor de orientação conservadora. Viver antes do triunfo dos valores do Iluminismo não seria para mim e, provavelmente, para Lovecraft boa ideia. Os tempos eram duros para a maioria das pessoas e eu estaria, por certo, entre essa maioria. Muitos cultores do passado, não todos, fazem-no porque vivem num presente que lhes ofereceu a oportunidade de uma vida que esse passado lhes recusaria. Há nisto uma batota existencial. Diz-se amar uma coisa sem correr qualquer risco de ser confrontado com ela. A culpa disto é não haver viagens no tempo. Quem amasse, por exemplo, a vida do século XVII, seria enviado para esse tempo e para a condição social que então era a dos seus antepassados. Contudo, a realidade foi construída de modo a evitar que as pessoas amantes desses passados tenham de provar o seu amor. E assim podemos proclamar que tudo o que amamos está morto desde que a roda foi inventada.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guerra de nomenclaturas

Oiço um sino, mas este não entra em comandita com o tempo para enterrar o dia. Esse era o de Burnt Norton, do primeiro quarteto de Eliot. Aquele que ressoa nos meus ouvidos é um sino mais prosaico e, por certo, mais pobre. Talvez seja um sino da anunciação, mas não descortino o que ele anuncia. Se fosse mais tarde ou noutra época do ano, seria o anúncio do crepúsculo, mas agora ainda falta muito tempo para que chegue a antecâmara da noite. Há, na rua, uma luz vibrante, batida pelo vento. As sombras crescem lentamente sobre o chão, enquanto oiço a minha neta mais nova, vinda por uns dias, dirimir uma batalha contra a Matemática. Vai ter aquilo que no meu tempo de estudante se chamava exame, mas agora, no final do nono ano, que dantes era o quinto, tem o nome de prova final. Nunca compreendi o que vai na cabeça das pessoas que inventam estas substituições de nomenclatura. Passei o meu tempo escolar a fazer exames, nunca me incomodou o nome. Talvez o supremo arquitecto destas alterações pense que adolescentes de 14 ou 15 anos fiquem traumatizados com a palavra exame, por ela vir do latim. Então, substituíram-na por uma expressão cujas palavras também têm a sua origem no latim, mas como são duas o efeito traumático de cada uma é anulado pela outra, e os adolescentes entram na sala, despreocupados, como se fossem à praia, que dali não vem mal ao mundo. Pior seria fazer um exame, agora uma prova final, significa que se tem de passar pela provação de estar sentado e depois tudo acaba, pode-se ir para a praia ou almoçar com os amigos. O sino parou, a luz continua a vibrar. Pertenço a outra era, penso, onde os sinos tocavam mais vezes, enterrando dias e noites, enquanto fazia exames, cujo começo e fim era desencadeado pelo troar de uma sineta ou de uma campainha, ou sei lá de quê. Vou procurar um restaurante para levar a exame a pobre adolescente, cheia de provas finais, desejosa de praia.

domingo, 7 de junho de 2026

Voar e cantar

É inusitado um filósofo – o canadiano Charles Taylor – começar com uma confissão, ainda por cima uma confissão de impotência, um tratado. Não será preciso, porém, andar há muitas décadas sobre este planeta para saber que, no momento da confissão, a impotência está ultrapassada. Trata-se de uma das suas mais importantes obras Sources of the Self (As Fontes do Self, na tradução brasileira). O Prefácio começa assim: Foi muito difícil para mim a redacção deste livro. Ela se prolongou por vários anos, e mudei algumas vezes de ideia quanto ao que deveria ser nele incluído. Isso se deveu, em parte, ao motivo tão comum de que, por um longo tempo, eu não tinha a certeza do que queria dizer. Ora, o que me interessa não é a confissão do autor, mas a sua experiência de não ter a certeza do que queria dizer. Isso acontece comigo sempre que me sento para escrever seja o que for. Não sei o quero dizer. Não tenho objectivos, não tenho um alvo a atingir. Começo a escrever e a escrita vai ocupando o seu espaço. Esta história confessional de Taylor deve ser interpretada de modo metonímico. Toma a parte pelo todo. O todo é a vida, a parte é a escrita. Posso dizer que não apenas nunca sei o que quero dizer, mas também nunca soube o que queria da vida. Escrevi-a sem objectivos, conforme os vocábulos me surgiam. Contudo, isto não é o mais grave. Mais grave do que uma pessoa não saber o que quer da vida é não saber o que a vida lhe quer. Suponho que a vida ao trazer alguém a ela há-de ter alguma finalidade, há-de querer alguma coisa daqueles a quem chama. Tenho meditado não poucas vezes sobre isso e contínuo como no princípio. Não sei o que a vida quer de mim. Chego mesmo a cair na tentação céptica de dizer que é impossível saber o que vida quer de quem quer que seja, para não falar dos momentos mais escuros que, num ateísmo biológico, nego obstinadamente que a vida queira alguma coisa de alguém. E se ela não quer nada de mim, o mais sensato é não querer nada dela. Não lhe pedir nada, ignorando-a na desfaçatez do seu silêncio. Hoje é domingo, o sol brilha. O vento faz dançar as folhas das acácias, enquanto os pássaros meus vizinhos cantam. Parecem felizes por não saberem o que querem da vida ou o que a vida quer deles. Voam e cantam.

sábado, 6 de junho de 2026

Vícios privados

Bernard de Mandeville era um astuto observador da sociedade. Tão astuto que escreveu uma obra a que deu o nome de A Fábula das Abelhas. Isto no início do século XVIII. Não foram poucos os que indignaram com o escrito. A obra era uma constatação da natureza da sociedade em que vivia e, acima de tudo, uma profecia. A tese central da obra defende que os vícios privados trazem benefícios públicos. As pessoas ao agir por ganância, vaidade, inveja e egoísmo vão dinamizar a economia e tornar a sociedade mais próspera, o que conduzirá a que todos beneficiem da corrupção dos costumes, dos vícios privados. Por outro lado, a conduta virtuosa tornará a sociedade cada vez mais pobre e irrelevante. Pensei tudo isto ao olhar pela janela, para os carros que iam passando sem pressa pela avenida. Depois, concluí que não é benéfico olhar pela janela aos sábados. O que se vê detona pensamentos que não se devem ter. Temos o dever de ser caridosos e não ver nos outros a vaidade que têm ou a inveja que ostentam. Depois, deve-se seguir a antiga máxima: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Não sei se é boa ideia juntar no mesmo texto uma passagem evangélica e a fábula das abelhas, mas foi aquilo que me ocorreu.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mentir a si mesmo

Há muito que prefiro ler ebooks do que livros em papel. Existem várias razões que não vou trazer à colação. Basta-me uma: tenho prazer em ser iludido. Explico: a letra num livro de papel é inalterável. Tem uma dimensão eterna. Num ebook, pode ser manipulada, dentro de limites, claro. Aumento-lhe a dimensão e fantasio que os meus olhos estão perfeitos. É uma mentira a si mesmo, mas que não traz mal ao mundo – quem se importa com essa mentirola? – e nem a mim. Somos seres frágeis e não suportamos demasiada realidade nem excessivas verdades. Por isso, mentir a si mesmo não é uma falta moral, mas um exercício terapêutico. O caso seria grave se tentasse iludir a oftalmologista que me olha no fundo dos lhos. Ela, porém, é inexpugnável. Pauta a sua observação pela mais estrita racionalidade e não me dá tempo para fantasias. O curioso, porém, é que ela também deve mentir a si mesma, pois, como eu, recorre a ebooks. E, por certo, quando lê, aumenta o tamanho da fonte e imagina que vê perfeitamente. Sei que ela lê ebooks porque já discutimos sobre eReaders. Contudo, nenhum confidenciou a que fantasias se entrega ao ler. Isso evidencia que a relação se mantém na estrita dimensão de médica – paciente, prestadora de serviços – cliente. E é assim que se deve manter. Aliás, o melhor é que as nossas fantasias se mantenham estritamente privadas, que sejam uma mitologia a que mais ninguém tenha acesso. O pior que pode acontecer é deparamo-nos com alguém que quer partilhar publicamente as suas fantasias. Não estarei eu a partilhar uma fantasia? Não, pois sou um narrador, e um narrador não existe. Ora, só o que existe pode fantasiar coisas que não existem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Metamorfoses

Não dei por hoje ser feriado, pois todos os dias passaram a ser feriado. A realidade suspendeu a força coerciva sobre mim, até que outra realidade suspenda definitivamente tudo. Uma viagem rápida à capital de distrito e um almoço numa terra que se intitulou capital do cavalo. Não vi nenhum, pelo menos reconhecível como tal. Sabe-se, porém, que há muitos cavalos disfarçados. Passam por nós e parecem-nos seres humanos, mas não são. Aliás, só um entranhado hábito nos leva crer que quando deparamos com um homem ou uma mulher é um ser humano que vemos. Esta crença, porém, está longe de ter provas fundadas. Quantas vezes, aqueles que passaram por nós como humanos, ao cortarem para outra rua se apresentam como cavalos, ursos, hienas, leões. Por certo ter-me-ei cruzado com alguns cavalos e não é improvável que tenha partilhado o restaurante com outros. Todos bem disfarçados. Não relinchavam e, quando se levantavam das mesas, não se punham a trotar. Andavam como seres humanos com o propósito de me enganarem. O mundo está cheio de metamorfoses, e, como fomos ensinados desde crianças, nem tudo o que parece é. Eu próprio…

terça-feira, 2 de junho de 2026

Homem do presente

Tinha pensado escrever sobre uma das mais famosas frases de Nietzsche: O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem. A ideia era comparar a superação do homem proposta pelo pensador alemão com a superação proposta pelas correntes transumanistas e pós-humanistas. A primeira alicerçada na ética e na vontade, a segunda na tecnologia. Depois, o barulho de um berbequim a perfurar o cimento no prédio, os gritos de adolescentes à espera da aula no Centro de Línguas e a preguiça que faz parte da minha natureza, tudo isso junto fez-me desistir de tão estouvado projecto Não quero saber de super-homens, dotados de uma supermoral nascida de uma supervontade, nem de homens hibridados com a tecnologia, que não serão já homens. Convivo bem com a minha humanidade limitada, frágil, mortal. Não quero ter uma superinteligência alicerçada num chip implantado no cérebro, basta-me a minha estupidez natural. Não quero um moral de super-homem, bastam-me as morais humanas. Não sou um homem do futuro, dirão. Claro que não. O futuro é aquele lugar em que estaremos todos mortos, mesmo os super-homens, mesmos os híbrido pós-humanos. Devia ir dormir uma sesta, actividade humana, demasiado humana. Talvez o faça.