Oiço um sino, mas este não entra em comandita com o tempo para enterrar o dia. Esse era o de Burnt Norton, do primeiro quarteto de Eliot. Aquele que ressoa nos meus ouvidos é um sino mais prosaico e, por certo, mais pobre. Talvez seja um sino da anunciação, mas não descortino o que ele anuncia. Se fosse mais tarde ou noutra época do ano, seria o anúncio do crepúsculo, mas agora ainda falta muito tempo para que chegue a antecâmara da noite. Há, na rua, uma luz vibrante, batida pelo vento. As sombras crescem lentamente sobre o chão, enquanto oiço a minha neta mais nova, vinda por uns dias, dirimir uma batalha contra a Matemática. Vai ter aquilo que no meu tempo de estudante se chamava exame, mas agora, no final do nono ano, que dantes era o quinto, tem o nome de prova final. Nunca compreendi o que vai na cabeça das pessoas que inventam estas substituições de nomenclatura. Passei o meu tempo escolar a fazer exames, nunca me incomodou o nome. Talvez o supremo arquitecto destas alterações pense que adolescentes de 14 ou 15 anos fiquem traumatizados com a palavra exame, por ela vir do latim. Então, substituíram-na por uma expressão cujas palavras também têm a sua origem no latim, mas como são duas o efeito traumático de cada uma é anulado pela outra, e os adolescentes entram na sala, despreocupados, como se fossem à praia, que dali não vem mal ao mundo. Pior seria fazer um exame, agora uma prova final, significa que se tem de passar pela provação de estar sentado e depois tudo acaba, pode-se ir para a praia ou almoçar com os amigos. O sino parou, a luz continua a vibrar. Pertenço a outra era, penso, onde os sinos tocavam mais vezes, enterrando dias e noites, enquanto fazia exames, cujo começo e fim era desencadeado pelo troar de uma sineta ou de uma campainha, ou sei lá de quê. Vou procurar um restaurante para levar a exame a pobre adolescente, cheia de provas finais, desejosa de praia.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.