sábado, 6 de junho de 2026

Vícios privados

Bernard de Mandeville era um astuto observador da sociedade. Tão astuto que escreveu uma obra a que deu o nome de A Fábula das Abelhas. Isto no início do século XVIII. Não foram poucos os que indignaram com o escrito. A obra era uma constatação da natureza da sociedade em que vivia e, acima de tudo, uma profecia. A tese central da obra defende que os vícios privados trazem benefícios públicos. As pessoas ao agir por ganância, vaidade, inveja e egoísmo vão dinamizar a economia e tornar a sociedade mais próspera, o que conduzirá a que todos beneficiem da corrupção dos costumes, dos vícios privados. Por outro lado, a conduta virtuosa tornará a sociedade cada vez mais pobre e irrelevante. Pensei tudo isto ao olhar pela janela, para os carros que iam passando sem pressa pela avenida. Depois, concluí que não é benéfico olhar pela janela aos sábados. O que se vê detona pensamentos que não se devem ter. Temos o dever de ser caridosos e não ver nos outros a vaidade que têm ou a inveja que ostentam. Depois, deve-se seguir a antiga máxima: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Não sei se é boa ideia juntar no mesmo texto uma passagem evangélica e a fábula das abelhas, mas foi aquilo que me ocorreu.

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