sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mentir a si mesmo

Há muito que prefiro ler ebooks do que livros em papel. Existem várias razões que não vou trazer à colação. Basta-me uma: tenho prazer em ser iludido. Explico: a letra num livro de papel é inalterável. Tem uma dimensão eterna. Num ebook, pode ser manipulada, dentro de limites, claro. Aumento-lhe a dimensão e fantasio que os meus olhos estão perfeitos. É uma mentira a si mesmo, mas que não traz mal ao mundo – quem se importa com essa mentirola? – e nem a mim. Somos seres frágeis e não suportamos demasiada realidade nem excessivas verdades. Por isso, mentir a si mesmo não é uma falta moral, mas um exercício terapêutico. O caso seria grave se tentasse iludir a oftalmologista que me olha no fundo dos lhos. Ela, porém, é inexpugnável. Pauta a sua observação pela mais estrita racionalidade e não me dá tempo para fantasias. O curioso, porém, é que ela também deve mentir a si mesma, pois, como eu, recorre a ebooks. E, por certo, quando lê, aumenta o tamanho da fonte e imagina que vê perfeitamente. Sei que ela lê ebooks porque já discutimos sobre eReaders. Contudo, nenhum confidenciou a que fantasias se entrega ao ler. Isso evidencia que a relação se mantém na estrita dimensão de médica – paciente, prestadora de serviços – cliente. E é assim que se deve manter. Aliás, o melhor é que as nossas fantasias se mantenham estritamente privadas, que sejam uma mitologia a que mais ninguém tenha acesso. O pior que pode acontecer é deparamo-nos com alguém que quer partilhar publicamente as suas fantasias. Não estarei eu a partilhar uma fantasia? Não, pois sou um narrador, e um narrador não existe. Ora, só o que existe pode fantasiar coisas que não existem.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.