domingo, 14 de junho de 2026

Dedicatórias

Ao oferecer um livro, coisa que deve ter caído em desuso, ninguém deveria escrever nele uma dedicatória. O livro que tenho diante de mim, acabado de escrever no dia em que fiz seis anos, tem uma dedicatória. Não consigo perceber a assinatura – melhor, só percebo o apelido – mas, pela letra, parece de autoria de uma mulher. Reza assim: Que a tua vida seja sempre banhada de Sol e que nunca a neve derreta. O desejo expresso não foi suficiente para reter o livro no proprietário ou nos seus descendentes. Acabou num alfarrabista, onde o comprei. A dedicatória não será amorosa. Talvez a de uma tia para um sobrinho. Talvez de uma madrinha para um afilhado. Talvez de uma amiga para um amigo. O facto de apresentar o presentado com alguém do sexo masculino é uma presunção sem qualquer fundamento. Voltando ao princípio. Uma dedicatória exprime uma vida interior a que só o que recebe a oferta deveria ter acesso. Quando um livro é vendido a um alfarrabista, a dedicatória entra no espaço público e fica à mercê de qualquer voyeur que pegue na obra e decida ler aquilo que não foi dirigido a si. Eu, por exemplo, não resisto a este tipo de literatura. Tenho mesmo livros em que as dedicatórias são mais interessantes do que a própria obra. Não devia lê-las, mas leio sempre e, se esses velhos livros não trazem dedicatórias, o que acontece a maior parte das vezes, fico decepcionado. Cada um tem os pecados que tem.

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